quinta-feira, 16 de abril de 2015

Mentiras

Ando contando mentiras. Bom, não exatamente isso. Na hora que digo são verdades. Ou quase. Eu quase acredito. Que sim. Que dá. Que somos. Quase acredito em futuros do presente. Não chegam a ser meias verdades. São inteiramente mentiras no momento antes e no logo a seguir. Mas quando digo, sim, são. O que você quer ouvir. Pretérito perfeito.

Aquele momento em que você percebe que nunca ficou pra ver alguém indo embora.

A saudade dói latejada, é assim como uma fisgada num membro que já perdi. Suspeito que, dessa vez, vou saber essa canção.

Eu tenho pouquinhos arrependimentos. Gosto demais da vida que tenho e que me tem. Mas. Quando eu tinha onze, doze e me chateava com meus pais, imaginava que minha família era outra. Que eu era filha do Zico, sei lá. Hoje, de muito em quando, brinco de imaginar quem eu seria se. Se tivesse compreendido que era imenso pra você. Se tivesse ficado mais um pouco. Se tivesse ido. Se tivesse ouvido. Se vestisse a meia, usasse o batom. Um vestido e um amor. Miragens. Com a idade, os desejos, os caminhos, os moços que eu tinha, eu não podia saber. E, se soubesse, não sei se teria a coragem. Ou a vontade. Mas, sei lá, como exercício, insisto. E rio de pensar bobamente: seriam lindas as fotografias.



Promete? quase pergunto. Mas calo. Mastigo, devagar, o desejo do desejo do outro e recordo que a fome pode ser aplacada mas não extinta. Aceito o oco. Pelo minuto a mais. Que é, sempre, tempo a menos. Depende pra onde se olha. De onde se conta. Suspiro e aceito, no peito, o bem querer girassol. Grande demais pra ser o que é. Mas insiste. Colorido. Estabanado. Caloroso. Exuberante. Que só se sabe assim, voltando-se pro riso. Que se faz no repetir-se da cama bagunçada, do suor nos lençóis, da janela fechada, nesse quarto que é sempre noite. Que se firma na forma como os corpos se sabem um momento antes do sono, no morno de estar junto muito tempo, nos sons que se fazem íntimos. Que se nutre nos afagos, no gostoso de caber na mão, do nariz no pescoço, do joelho entre joelhos, da ilusão. Que vinga exatamente no agora, espaço sendo tempo, tempo sendo gosto. Girassol que é justamente porque finda. Murcha. Mas não hoje. 

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