quinta-feira, 9 de abril de 2015

Estilo

Eles fazem planos como quem se despede. Tecem futuros, como manta grossa e aconchegante, para se protegerem do frio que virá. Na alma. E nos pés gelados que costumavam se enroscar.

Anos depois ainda não sabiam explicar, mas tentavam: foram os olhos de ressaca. Ele, curioso, chegou perto, tão perto, tão perto, que quando deu por si já tinha mergulhado. Ela, distraída, o procurou e não achou ali, bem junto, como gostavam. Entristeceu. Mal sabia que não o via porque ele estava dentro. Até que soube: aquele incômodo no peito era ele, construindo abrigo para se proteger do frio no ambiente inóspito. Viveram assim, ele bem dentro dela. Quase sempre bom. Mas, às vezes, doía. Um homem por dentro, ora, é preciso espaço. Ele devastava, construía, reorganizava. Acendia fogueiras. Ocupava. Ela trincava os dentes e seguia. Até que um dia. Nunca souberam explicar, mas tentavam: foram os olhos de ressaca. Ela chorou e foi assim, na vazante, que se despediram. Ele banhado de sal. 



Eu sempre quis ser uma pessoa com estilo. Mas necasquipitibiriba. Nunca tive o gosto, o olho, o jeito ou, pelo menos, o dinheiro – que não resolve, mas compensa um bocado. Agora comprei um chapéu. Marrom, abinha curta, meio fiote. Estou querendo ser a “professora esquisita que anda de chapéu e lenço”. A nuvem no horizonte é que minha memória é uma geleia e corre o risco do chapéu ficar penduradinho no seu gancho mais vezes do que o razoável. Daí nada de epíteto.

Das coisas que faço: um café mais forte pra compensar o açúcar. Esquecer de colocar o açúcar. Só perceber no penúltimo gole. Colocar açúcar. Mexer. Beber o último gole. Fazer mais café pra compensar o açúcar. Posso continuar assim por horas.

É tão simples que muitas vezes me espanta as pessoas não considerarem assim. Eu gosto de cozinhar. Eu não gosto de limpar. Eu limpo e cozinho. Porque me apetece comer e viver em um ambiente razoavelmente higienizado. Nem homens nem mulheres nascem sabendo e gostando de limpar e/ou cozinhar. Cozinhar e limpar são tarefas e comportamentos necessários para a manutenção do espaço de vida. Necessário para pessoas de todos os gêneros. O machismo não está na luciana cozinhar ou limpar, mas na naturalização dessa tarefa como minha porque “própria” do meu gênero.

Estou rindo alto aqui. "Dicas para ter um quarto mais aconchegante". Daí todas elas versam sobre como torná-lo mais quentinho: cores escuras, tapete felpudo, cortinas grossas, etc. Obviamente a pessoa que escreveu o lance nem pensou que existem pessoas que moram em lugares como Mossoró. O meu quarto vai ter verdinho claro nas paredes, cortina de rendinha, conchinha na prateleira, cama baixinha e todos os diminutivos carinhosos que eu conseguir acrescentar. Daí, com o resto miudinho, fica grandão o espaço de ser feliz. Quer coisa mais aconchegante do que o riso?

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