domingo, 26 de abril de 2015

E a tese?

Luciana e a tese? Nunca sei o que responder quando me perguntam isso (a não ser que essa pergunta seja feita pela minha orientadora, mas nunca é). Não sei se a pessoa espera que eu diga pequenas variações genéricas de: “estou terminando”, “vai bem”, “vai mal”, “a fase de campo é dureza, parece que não acaba nunca” ou se ela quer que eu entre em detalhes pormenorizados sobre a dúvida metodológica da escolha do instrumento de análise de dados, se quer que eu fale das categorias de análise, da minha angústia epistemológica por não querer trabalhar com modelos explicativos, etc. Quase sempre deduzo que é mesmo e apenas parte de um plano maior de me fazer sofrer.

Escrever é solitário, escrever uma tese é um bocado mais. Nem mesmo nosso orientador tem o mesmo nível de interesse naquela cabecinha de alfinete que é nosso objeto de estudo. Nem mesmo os colegas de sala, a turma do grupo de pesquisa (quando há, que não é o meu caso na situação atual) usa os mesmos autores, a mesma metodologia, viaja na mesma maionese que a gente.

E, diferente de dar aula, fazer parte de um grupo de pesquisa, escrever um artigo ou coordenar um projeto de extensão (pra ficar só nas coisas do "trabalho acadêmico", sem nem comparar com coisas como vender carro ou desenvolver software), o resultado quase não aparece. É totalmente louco. Horas e horas, dias e dias e de cem páginas prontas passei a ter trinta. Como explicar isso? 

Estar escrevendo essa tese coloca uma lupa gigante nos meus defeitos. Cara, quanta inveja eu já senti. Sério. Inveja dos temas alheios, Dos trabalhos alheios. E a mesquinharia? E a preguiça? A carência? A sensação de abandono? E a inveja, já falei? 

Sem falar da certeza quase onipresente de que não vou conseguir, que depois do segundo ano parece não me abandonar. 

Mas, só hoje, a pergunta está liberada. Hoje responderia, animada, que vou a campo essa semana. Que revi o guião de entrevista e me pareceu bom. Que o referencial teórico, ainda incompleto, me parece consistente e pertinente. Que minha introdução não tem a mínima cara de primeiro capítulo de tese. Que me deu vontade de chamar o Guerreiro Ramos pra conversa, mas ainda não sei direito como. Que estou com medo de voltar às entrevistas que fiz no Brasil e não conseguir chegar às categorias que tinha chegado antes de perder o computador. Que tenho medo de chegar a nada, de ouvir as entrevistas e pensar: virge, isso não dá uma tese, Que tenho medo (talvez maior) de ouvir as entrevistas e pensar: eita, dá uma tese, mas não saber escrevê-la. Hoje responderia que tem um bocado de trabalho a ser feito e isso é assustador, mas íntimo.

Luciana e a tese? Vou fazendo ao mesmo tempo em que ela me faz.


2 comentários:

Renata Lins disse...

Segue o Umberto Eco, beibe. Tudo dá uma tese.
Beijo e força na peruca.

Lud disse...

Então o computador se perdeu mesmo na noite dos tempos, hein? Que puxa.

O lado bom é que muita gente boa perdeu seus manuscritos, teve que escrever de novo e ficou muito melhor =D.

Muitíssima boa sorte no processo!

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