terça-feira, 31 de março de 2015

Seguindo a Correnteza

Tem um livro da Agatha Christie que gosto muito, provavelmente mais do título que do livro - e olha que gosto bastante de tudo que ela escreve. Mas é que o título me contempla e até me explica: Seguindo a Correnteza. Um tanto da minha vida eu sinto assim. Uma vida fácil. Uma vida boa. Que vai no ritmo que vai. Sabe o Zeca Pagodinho? Vida leva eu? Bem assim. Eu tenho enorme dificuldade de escolher pequenas coisas, as grandes nem tanto. Mas pizza ou sushi me parece um desafio sério. Acabo comprando pouca roupa e muito livro pelos mesmos motivos. Quando vou à livraria não consigo escolher um só, acabando saindo com vários e desejando os que ficaram. E não costumo ir comprar uma blusa ou um vestido. Como sei que não sei escolher e como não preciso de vários, acabo comprando nenhum. Não, não sei se quero coxinha ou pastel, pode ser os dois? Sorvete de quê? Prefiro nem tentar. Escolher cores pra pintar a casa? Um martírio. Um dos quais não vai dar pra escapar. Tantas me parecem ótimas, tenho medo de todas e com certeza vou acabar no previsível, banal ou mais barato. E me envergonho disso. Não sou boa em escolher. Eu me iludo pensando que, estando lá, chegando em casa, será mais fácil. Mas sei que não. E escolher antes me possibilitaria chegar em um lugar com cores. Que tivesse vida. Que sorrisse, cúmplice, do nosso vazio. Da casa. Meu.

Por um momento quase sei: esvoaçantes cortinas amarelas.

Tem uma crônica que o Vinícius de Moraes escreveu quando o Antônio Maria morreu que termina bem assim: triste (…) de me deixar assim sozinho, sentado à máquina de escrever, com sua morte enorme dentro de mim. E todas as vezes que eu penso no depois, essa frase me vem à memória e eu quase desejo que você morra. Aí eu penso: desnecessário, será um ausente, como se. E vou ali separar as peças pretas pro luto.



Minha casa são meus ímãs de geladeira, talvez.

Não costumo ter medo de morrer. Mas, às vezes, tenho medo de não dar tempo. 

Não sei o tanto de saudades que vou sentir de você. Talvez nem tanta. Mas imagino quanta falta vou sentir da gente. E isso me apavora.


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