segunda-feira, 16 de março de 2015

Ficções

Porque é ela que geralmente preenche os silêncios com sua fala ritmada, porque é ela que usa as palavras como pontes, porque é ela que permite a ele o conforto ocasional do silêncio para a seguir abraçar em mais letras, porque é dela o som no carro que segue, rápido, pela estrada e a distrai em paisagens, é por isso, ela tenta se convencer, é por isso que há um pequeno sobressalto quando ele diz: …daí nós compramos uma rulote e podemos…

Faz uma semana quentinha, com dias de 22 graus, camiseta e suor escorrendo nas costas... o que é que a pessoa faz? Empacota (a vácuo!) todos os casacos, suéteres, blusas mais agasalhantes, xales e echarpes e enfia tudo na mala, coloca um monte de treco por cima e tal. Aí a semana seguinte começa com -1. 

Às vezes eu escrevo coisas como: e nos despedimos agora, para que o tempo do adeus se assente em nós como se sempre tivesse sido e nem precisemos lembrar de esquecer ou fechou a janela, o peito e os olhos e esperou que, não vendo a vida, a vida não a visse e seguisse sem ela e sempre vem alguém na caixinha perguntar se está tudo bem, se eu terminei o meu relacionamento, coisas assim. Olha, tem gente que às vezes confunde realidade e ficção. Eu não. Nada de às vezes pra mim. Eu faço isso o tempo todo. E no blog, então, um parágrafo pode ser uma coisa, o outro outra e alguns são as duas, pra que escolher? Realidade e ficção.

Ela não viu como essa conversa foi chegando, ela não sabe pra onde esse assunto pode levá-los. Ela se assusta. Fica um pouco surda. Pede pra ele repetir. Ri de si mesma. O amor, mesmo o mais silencioso deles, deixa-nos um tantinho parvos.

Por uma vida que cheire a especiarias.

Ele a veste, alimenta, penteia seu cabelo. Cuidar é seu jeito de dizer, embora nem ele nem ela saibam direito o quê.

Está confirmado: haverá um amanhã. O que não está certo ainda é para quem.

E ela, que menina já sabia bordar porque era o ofício das mulheres da família, e ela, que bordava os bilhetes de amor e se esmerava nas cores e letras pra melhor falar do gozo passado, bordou, sem lágrimas, o que era dele, nome e futuro, no enxoval da moça risonha que vinha daquelas famílias em que mulheres não tem ofício. As linhas alegres e delicadas mal conseguiam esconder as sombras que, ela mais sabia do que desejava, morariam também nos olhos da moça desavisada. Generosamente, deixou um fio por puxar. 


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