domingo, 8 de março de 2015

Conchinhas

E ando pelo bem querer como, em criança, passeava na praia, vasculhando as belezas, colecionando memórias, mergulhando sem medo.

Procuro ensinar-lhe a letra A, como dizer da alegria sem isso? mas ela desenha cavernas e poços sem luz, eu temo o escuro de mim mesma e nos desacostumamos dos encontros. Faço meus próprios rabiscos, com crayons cor de cobre e ela os preenche com sangue. Choro uma saudade morna de tê-la sempre presente e ela morre - só pra me agradar.


  
Amar o perdido / deixa confundido/ este coração.
Nada pode o olvido/ contra o sem sentido/ apelo do Não.
As coisas tangíveis/ tornam-se insensíveis/ à palma da mão.


Estou de relacionamento novo, não há outro jeito de dizer. Não, não foi por minha vontade, mas é da vida. Sei que há bastante glamourização da paixão, das descobertas no novo, do frenesi do envolvimento mais recente... eu não, sinto falta mesmo é da intimidade construída. Sinto falta de saber o como, o quando, o porquê. De rapidinho tocar e encontrar. Mas o que não pode ser, não pode ser, ele já não está mais aqui. Então escolhi blusa nova, coloquei brinco, passei base, batom, rímel e fui lá, conhecê-lo. O outro. Não sabia nada dele, além de umas informações vagas colhidas aqui e ali. Dicas de amigos. Não tinha tempo pra muito vira e mexe, sabia que tinha que voltar pra casa abraçadinha, não tinha outro caminho, já eram muitos os dias sozinha, olhos rasos, encolhidinha no sofá, os mesmos filmes repetidos repetindo-se e agathas christies pra amortecer a dor. Não mais. Ia voltar pra casa com ele – e voltei. Agora é descobrir os atalhos, alinhar os ritmos, desvendar segredos, adivinhar percursos. Deixo os dedos se acostumarem com sua textura, resistência, medidas. O bichinho de esfregar é mais pro ladinho. O de apertar é do lado direito, não do esquerdo. Tento não comparar, mas é meio inevitável nesse momento da relação. Sei que, com o tempo, ele vai se tornar a referência principal, mas, por agora, ainda é o novo, o recém-chegado, o outro. Ainda não o amo, mas já me sinto atraída, estou aberta e disponível. Tem sotaque português. Muitos buraquinhos úteis. Pesa 2,2Kg, tem teclas enormes (deve ser pra míope), cabe um mundo no HD e se chama Tob.


Ainda não sei direito o que perdi. Além da fé em mim mesma e a alegria por uns dias. Do que eu lembro: dois artigos teórico-empíricos fechados, prontos pra submeter; um ensaio em processo; o trabalho de categorização das falas dos entrevistados; mais de vinte resenhas de livros/artigos; fotos, muitas e muitas fotos; doze contos novinhos para um livro que já não será. 

 Próxima semana vou completar 40 anos \o\ lol /o/ Sabe o que eu adoro? Festa! Sabe o que eu não vou ter? Festa! Fuen, fuen. Mas eu matutei, matutei, matutei e pensei em um jeito de fazer não só o dia mas o mês muito mais bonito e divertido. Então vim aqui pedir: carta, cartão, telegrama, postal, bilhete... O que você quiser me mandar pelo correio. Eu vou amar. E guardar com carinho. E responder, pra quem quiser. É só pedir meu endereço.


Um comentário:

Juju M. disse...

Então, é isso, você também é marciana. Adoro gente nascida em março, assim como eu (que digo que não acredito em astrologia). Tanto que tenho tantos amigos nascidos nesse mês que nos reunimos vez em quando para festejar juntos. No último sábado éramos em 9 comemorando.

Que dia é o seu?? Felicidades marcianas!!

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