domingo, 22 de março de 2015

A Cor do Trigo

"Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. 
O trigo para mim não vale nada. 
Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! 
Mas tu tens cabelos dourados. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. 
O trigo, que é dourado, fará com que eu me lembre de ti. "

Muita gente não gosta do Pequeno Príncipe. Não é o meu caso. Contestam, especialmente, a relação com a raposa. Não eu. Tem tanta coisa lá que me comove. Uma das coisas que sabemos, eu e a raposa: acaba. A vida traz, a vida leva. Sabemos a despedida, as lágrimas. Outra coisa que sabemos: permanece. Na memória e, quando não mais, na pele. A cor do trigo, isso permanece. Se você e a raposa sabiam a dor, porque quiseram? O que ganharam? Ganhamos a poesia. O mágico efeito de uma coisa que era apenas mais uma, o trigo, por exemplo, poder nos emocionar, comover, encantar. Ganhamos o sentido. Ganhamos o sorriso solitário e misterioso por uma lembrança tão íntima que sequer pode ser nomeada.

Tem o futebol, por exemplo. Eu gosto do jogo, de cada partida, das jogadas, dos gols. Gosto mesmo. Mas é muito mais que isso. Futebol é a cor do trigo dos cabelos do meu pai.

E tem as castanhas. A ninguém mais vai saber como sabem pra mim.



Tem o blog da Renata. Que já existia antes de eu a conhecer, então tem umas lindezas que já estavam mas vou descobrindo aos poucos. Como esse post. Tão bom de ler. Tão próximo em tanta coisa. O momento que a árvore já desapegou e só nos resta soltar as mãos e cair. “É no chão que continua”. Tem o medo de soltar. Tem a angústia da queda. Tem a dor do choque no chão. Mas tem trilha sonora que compensa:


E tem aquelas vezes que a dor é outra. O galho está firme e se enrosca em forma de ninho. Aconchegante. Aquele convite silencioso: fica. Aquela possibilidade de permanência. Mas você não pode. Só resta voar.

Então eu faço promessas que não vou cumprir. Concordo com planos que não vou realizar. Não é mentira quando a gente, mesmo sabendo que não pode, encontra na gente o querer. Ou é?

A única saudade que tenho dos amores da juventude: eu desconhecia o doer do outro. 


Um comentário:

Renata Lins disse...

que lindo. e inda tem o pequeno príncipe. <3

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