quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Saindo de Mim


Ir embora de Lisboa envolve uma série de atividades assustadoramente simples: comprar passagem, separar as roupas que vão na mala com azeites e vinhos verdes, empacotar livros e cds, faxinar e entregar o apartamento, pegar um taxi na hora certinha, fazer checkin e tirar um cochilo enquanto o avião atravessa o mar. Pronto. Fui embora de Lisboa. Ir embora de Lisboa, pelo menos no planejamento, é bem fácil. Mas como fazer Lisboa ir embora de mim?

Não há nada de simples ou fácil nisso. Lisboa é uma cidade amável. Nem sei direito quando foi que os azulejos, o cheiro de sardinha, a fumaça das castanhas, o eco do fado, o azul do Tejo, o irregular das calçadas - quando tudo foi se entranhando em mim. A rua em frente de casa, sempre mais fresca que o resto da cidade. Os sons do mercado de manhã cedo. A Baixa sempre viva e acolhedora. Esticar a vista procurando o 709. Sacolejar espremida e renovadamente deslumbrada no eléctrico. O Jardim logo na esquina. O som dos sinos aos domingos. O leite com nescau na garrafinha. Fica tudo misturado. Ela em mim. As coisas imensas. As miudinhas. O dia todo dentro de casa, espiando o computador, os distantes sons da rua. O dia todo na rua, o sol frio, o azul intenso, as ladeiras.

Eu vou embora. E, comigo, um nunca mais. Mesmo que aqui volte – e voltarei, não seremos as mesmas e nem as mesmas serão nossas relações. Não vou ter um CEP, vizinhos ou problemas com canos entupidos. Não sou daqui, mas por aqui ter estado, suspeito que nunca mais serei completamente em algum outro lugar.


3 comentários:

Daniel Nascimento disse...

Depois de haver morado em 5 endereços diferentes no Brasil (sendo que em um morei duas vezes mas tanto eu quanto o local já não éramos os mesmos), 3 na Alemanha, 2 na Inglaterra e agora estar na França, apenas posso me emocionar com a identificação.

E deixar-te desde já o abraço apertado, uma mão a segurar, diante da futura visão do ap vazio instantes antes da partida.

<3

Rita disse...

Ah, Lu. Lisboa certamente está também pensando e agora, como faz? Sem ela nas minhas calçadas, sem ela descendo a rua e sabendo ver meu rio? Suas lindas.

Fernanda disse...

Também adoro, já passei por lá 3 vezes, 2 no ano passado, amamos, parabéns e muito.Swing

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