terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Panoramas

Panorama 2015: voltar com nada pra lugar nenhum. Nenhuma conquista, nenhum mérito, nada nos bolsos ou nas mãos. Me sentindo menos do que era. Precisando de coisas que nunca precisei. Sei não, mas acho que ficar borocoxô qualquer hora dessas tá no script, né.




Você pergunta o que eu fiz durante o dia e eu engasgo e gaguejo na resposta. Desaprendi a dizer: estava pensando em você.

Ando apostando quanto tempo vou levar pra redescobrir como acordar sozinha.

Seria mais fácil se entre a gente fosse mais difícil.


E como viver no depois de agora?




Hoje, ônibus na estrada, veio-me essa ternura. Eu durmo fácil em qualquer viagem. Porém, em toda parada, em qualquer parada, acordo. O ônibus diminui a velocidade e eu já me arrumo na cadeira, alerta. Mas na poltrona atrás da minha tinha uma moça que não acordou. O ônibus parou e ela continuou dormindo. Durante toda a parada, pessoas subindo e descendo no ônibus, luzes acesas e ela dormia. Fiquei fascinada. Dormir é estar entregue. Despida de toda tentativa de ser quem se quer ser. Despida, apenas - se isso pode ser um apenas. Quando eu namorava a lua (rá, quem tem um currículo assim?), uma dos mais constantes rituais de amor era dormir em seu colo. Mãos juntas, conversa ritmada e o peito feito travesseiro, eu dormia. Passou o tempo, mudaram os colos, as conversas, as mãos que eram dadas, mas a entrega estava ali. Até aquele. Até aquilo. Até não mais. Cheguei a você de olhos abertos. Desperta. Eu, que me orgulho de me jogar em abismos, inquietava-me de já não saber dormir a não ser sozinha. Eu queria. Não ter medo. Esperar o bom. Saber o riso. Mas não. Queria exatamente assim: poder ser vista, mais do que ver ou mostrar. Mas não. Não mais. Achei que tinha perdido essa capacidade. Achei que tinha me perdido ao perder a possibilidade de não ser. Aí, a gente. E no seu abraço fui balançando. Um bem querer que nina. Dormir, no seu braço, no seu olho, no tempo incerto, cafuné, chamego. Eu ainda posso. Olhos fechados, coração aberto. Se tudo mais não fosse beleza e gozo, moço de agora, seria, ainda, gratidão, porque você me devolveu esse sono que é entrega.

Um comentário:

Lis Comunello disse...

Sempre achei que dormir junto de alguém era muito maís íntimo que sexo. Dormindo estamos indefesos, inconscientes, expostos. Dormir com alguém, para mim, exige muito mais confiança do que para fazer sexo.

Beijo, Lu!

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