segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Eu, Só

Eu só preciso de um tempo pra sentir essa dor, pensava ela, entre afazeres. Limpou janelas, arrumou estantes, moveu móveis, cozinhou, lavou, passou. Talvez semana que vem. Poliu, dobrou engomou, varreu, esfregou. Nem percebeu que o que enxugava no chão, com vigor, eram lágrimas.

Eu só quero que o tempo já passe e você se torne uma fotografia amarelada na gaveta, daquelas que a gente vira pra ver se tem nome e data, porque nem lembra o motivo do sorriso que deixou na foto. Deve ser um sorriso, aliás, mas pode ser só um leve desbotado.

Eu só soube naquele momento, juro. Foi quando você me abraçou e eu baixei os olhos e escondi meu rosto no seu peito como quem se aconchega. Sim, eu estava fugindo. Não, não tenho certeza de quem. Provavelmente de mim, a quem desprezo um número significativo de vezes. Como quando você me abraçou e eu baixei os olhos para que você não visse que você não estava lá. Ficamos abraçados e eu podia escutar o seu coração, mas era um som cada vez mais distante e quanto mais eu me aninhava menos te sabia. Ainda nos abraçamos muitas vezes depois. Eu baixava os olhos, sempre. E você beijava o topo da minha cabeça e seu hálito era quente, mas eu sentia no peito o frio dos lugares há muito vazios. Não é por mal, eu sussurrava à noite, enquanto você dormia, a boca encostada em seu peito, seus braços como travesseiro, meus olhos desabitados. Sussurrei muitas vezes, mas nunca acreditei em mim mesma.

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