domingo, 14 de dezembro de 2014

Ecos

Ele foi apagando os restos de memória feito matéria: os pratos do último jantar já não estão na pia, as toalhas usadas por ela foram lavadas, dobradas e já se perderam no armário cheio, os frascos de desodorante, sabonete e shampoo já foram ao lixo, lençóis de cama trocados vezes e vezes até não saber mais quais os últimos usados em conjunto e mesmo as peças de roupa que ela nunca lembrou de levar embora foram doadas. Ele separou e fechou na gaveta todos os livros, cds, dvds e papéis que ela ofertou. Por precaução, guardou também os que viram e ouviram juntos e os que ela apenas comentou. Nunca se sabe as vertigens que os abismos da memória podem provocar. Com uma convicção que não sabe justificar, planeja: quando a casa já a tiver esquecido, também ele o fará. Nada fora do lugar, como por anos não foi possível, ela sempre tinha um jeito distraído de colocar um livro lido em uma prateleira completamente diferente da que tinha retirado. Ou empilhava cds que esquecia de ouvir. Deixava as sandálias embaixo. De quê? De qualquer coisa, da cama, do sofá, do aparador da entrada. Agora, não mais. Consegue organizar as blusas por cor, no guarda-roupa, e não por aquela ordem completamente bizarra que ela insistia, sorrindo. Ela sorria muito, ele ainda lembra. Ela sorria porque? porque a ordem das camisas a divertia, porque o café estava quente, porque a mão fria na pele quente a arrepiava, porque lembrava de antigas histórias, porque chovia, porque não chovia. Porque você está sorrindo agora? Porque a vida é tão boa de viver, não lhe parece? E parecia, mesmo, naquele momento em que ela o dizia – ele suspeita que a culpa era do sorriso. Ela sorria muito, ele ainda lembra, mesmo com tanto cuidado para arrumar a casa. Dedicou-se a isso, a lembrar do que devia esquecer e a cuidar da casa para que não houvesse vestígios. Limpou, arrumou, organizou. Livrou-se, depois de tempo, saudades e trabalho, até dos fios de cabelo, a marca mais insistente. Recolheu-os todos. Dela, nenhum sinal. Quase satisfeito, percebe: só não descobriu ainda como ignorar o eco do riso nos cantos do peito, quer dizer, da casa.



Uma coisa boa da maturidade: eu não levo mais quinze anos pra entender a enormidade de pequenas gentilezas.

Eu tenho uns pudores e reservas inexplicáveis engraçados (especialmente sabendo como sou). Tem coisas que não tenho a coragem de fazer. Como se eu não merecesse ou algo assim. Fico envergonhada. Ontem, depois de 27 meses de paquera, finalmente tomei uma Imperial no Martinho da Arcada. Estou que os dentes não me cabem na boca.
  

Um comentário:

Juju M. disse...

Vamos paquerar menos e amar mais? Estou tentando apesar dos pudores.

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