sábado, 6 de dezembro de 2014

Ausência

Daqui
O que ela gosta mesmo é do corpo dele estirado na cama. Não tem as marcas de sol que ela se acostumou a ver nos corpos mais ao sul. Mas tem outros registros, do tempo, da vida – nem sempre fácil. Cicatrizes, manchas, ausências. O que ela gosta mesmo é do corpo dele. Os fios mais macios na nuca. O braço dobrado sustentando a cabeça. Os cílios que fazem sombra na face. Os lábios um tantinho separados. A curva dos ombros e aquelas sardas miúdas. As duas covinhas no fim das costas. O quadril estreito. As coxas, estranhamente firmes e aí o lençol, empurrado pelo sono até os joelhos. O que ela gosta mesmo é do corpo dele, o morno que ele expira no sono, os pelos macios no braço que se repetem um tanto mais grossos nas pernas, os dedos longos. O que ela gosta mesmo é do corpo dele, um gosto salgado na pele, o cheiro de mel e madeira, o áspero da palma da mão. O que ela gosta mesmo é do corpo dele estirado na cama, o peso do sono marcando o colchão, enquanto ela se veste silenciosa, revira a bolsa, encontra a caneta, rabisca o bilhete, rasga, enfia o papel na bolsa, reúne as poucas coisas espalhadas e sai sem adeus.

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Detesto quando eu estou distraída de você, aí vem aquele afago repentino e fugaz e esqueço como era não te querer.

Em 2015 eu quero: letras, palavras, frases, parágrafos, capítulos. Uma tese.

É esquisito como uma ausência pode nos ocupar completamente.
  

Suspeito que o amor é meio como o vírus da gripe. A gente chama pelo mesmo nome todos os episódios, tem sintomas parecidos a cada adoecimento, pensa que se protege fechando o corpo vitamina c e sei que lá... mas dada sua capacidade de mutação, o danado é sempre novo e costuma nos pegar desprevenidos. E, claro, costuma nos deixar de cama.

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