sábado, 1 de novembro de 2014

Vick Vaporub

De quando o Samuel ficava doente madrugada adentro a ponto de ter que levá-lo a uma consulta no meio da noite, lembro o desoprimir do peito que me acometia mal entrava na recepção da clínica. Essa sensação faz eco, bem sei, com aquela outra, também de alívio, de quando era menina, estava em crise de asma e meus pais me levavam ao médico – o que geralmente vinha seguido de inalação no aerossol e, assim, o desoprimir do peito também se dava e não em metáforas. Distanciada, identifico pelo menos um dos ingênuos sentimentos: a impressão de que o cessar da dor deriva de uma resposta sobre o porquê de senti-la. E, claro, junto com isso a ilusão de que alguém tem tal resposta. Eu cresci e já sei que não há respostas e que o alívio é intervalo. Aprendi que ninguém sabe o que suponho que há pra saber e, além, descobri que o saber é sempre cobertor curto para o desejo. Entretanto. Estava aqui, sozinha, doente, vulnerável. Com medo. E lá fui eu para minha consulta com médico e local desconhecidos. Entrei e lá estavam: a recepção fria, as cadeiras duras, as cores claras, a máquina de café, o garrafão com água, a televisão ligada e sem som, a placa com as muitas especialidades e, junto a isso tudo, aquela sensação do peito em alívio.

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A gente nunca sabe, não é, se vai acertar. Mesmo que a gente se esforce, mesmo que ache que está fazendo o melhor. Quando eu ficava gripada minha mãe espalhava vick no meu peito. E quando eu piorava e ficava "com falta de ar" fazia uma panela enorme com água fervendo e eucalipto pra eu inalar. Era para o meu bem, ela pensava, eu pensava. Até a gente saber que o eucalipto acelerava uma reação alérgica que contraía mais rápido meus brônquios. Não dá pra se agarrar à verdade. A gente não tem como saber com certeza se vai acertar.

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Então eu acordo na madrugada e sei suas mãos fazendo bem querer no meu cabelo. Sem esperas. Apenas dizendo com os dedos o que às letras escapa. 



Das frases pertinentes pra constarem na minha lápide: Sempre foi com muita sede ao pote.

Seguimos, eu e meus manacás imaginários.

Charlie Brown não me deixa esquecer: o amor é um carro azul.

Do que mais gosto é acordar em você.

Os dias seguem indiferentes ao meu medo. E é assustador. Mas também seguem quando rio, gozo, brinco. E é libertador. Os dias seguem e eu neles. Por enquanto. E isso é o único definitivo na coisa toda.

Um comentário:

Juju M. disse...

Que a gente tenha muitos intervalos, seguidos de risos, ainda que nervosos.

Lindo! Olho encheu de água.

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