sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Variações Sobre Os Mesmos Temas

Que importa que você não seja o enfim? eu não quero escrever finais felizes em histórias, quero é pegar estrada, quero é quarto sem vista pro mar, sem janela, sem porta, casa muito engraçada feita de cerveja, riso e suor. Quero é cama, pele e música, Quero é seu gosto de cigarro. E sua mão fazendo cócega no meu pé. Quero é você rindo das minhas perguntas e ensinado a mesma coisa vezes e vezes, como se o hábito de inventar desculpas pra ficar perto fosse um objeto antigo que tivéssemos prazer em guardar. Quero é acordar com tua perna pesando na minha, tua barba reescrevendo vontades no meu ombro, tua voz sussurrada acendendo um desejo que é tão meu e tão outro. Quero é fazer do quando, agoras. E fazer, de abraços, portos de ancoragem.



Há coisas que eu vou escrever e suspeito que já escrevi, vou procurar e, bem visto, existia mesmo. Suspeito que só me reste o eco. Era isso: já que não posso voltar pra casa, volto aos mesmos livros de sempre. Eu os conheço, eles me conhecem. São, por vezes, ariscos ou ríspidos, mas com aquele toque de afeto íntimo presente até entre inimigos que convivem a muito tempo.

Porque você sente frio e aí puxa o cobertor por cima de mim. Porque responde ao obrigada com uma piada interna. Porque você pergunta se eu não vou secar o cabelo, coloca as duas mãos na minha nuca e passa um tempão sacudindo os fios molhados. Porque diz: “sempre que quiser” e eu quase vou. Porque aquece o creme antes de espalhar nas minhas costas. Porque planeja futuros que não serão. Porque eu quase acredito. Que tenho um coração. Que há amanhãs.

Sabe o que é estar imerso mesmo no mundo capitalista? Confundir a data de validade do seu passaporte com a do cartão de crédito.



O mar, quando quebra na praia, é bonito... Não sou uma apreciadora ou apologista inconteste da natureza. Gosto das coisas que o homem faz, como almofadões, ventilador e leite condensado. Mas ainda não achei nada, nada, nadinha que me comova como o mar (talvez algum quadro do Caravaggio, a voz da Bethania ou um filme de Ford, mas é - ainda - um talvez). O mar me espanta, atrai, excita, acalma, anima, sacia, provoca. O sal do mar entranha nos desejos. A brisa assanha as idéias. O movimento do mar se instala nos quadris. À beira mar tudo parece mais certo, mais límpido, mais fácil. No mar tudo é flexível e sedento. Ansiado. Tudo que quero fica mais claro quando somos, mar e eu. Fica fácil saber: minha sede não é qualquer copo d´água que mata. Essa sede é uma sede que é sede do próprio mar. Essa sede é uma sede que só se desata se minha língua passeia sobre a pele bruta da areia...



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