quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O Futuro é o Sítio Onde Se Mora*

Das coisas que eu não sei fazer: piscar o olho, bordar, me comunicar em outra língua (talvez nem na minha), começar uma conversa, marcenaria, dançar tango, limpar um forno, poesia, arroz. Ah, viver.

Vou dizer pra vocês que se eu dividisse as coisas que acontecem em certo e errado teria que registrar que tem tudo, tudo, tudo dando errado.

Vem chegando o Natal. Eu sei, eu sei, o capitalismo, consumismo, a culpa cristã, etc e tal. Mas eu não consigo evitar: o brilho no olho, o baticum no peito, o riso.

Uma coisa que aprendi: fazer purê de batata com leite de coco.

Imensidão e sal. E tudo que não se pode nomear. O mar me faz destemer as mortes. Por causa de Caymmi e Clara, claro. O mar me diz: tranquilo, tempestade, em transparências ou em perigos, mistério. O mar se contém, também eu. Maré cheia ou vazante, é ainda a mesma água, mesmo percurso, o mesmo. Eu permaneço. Quero ser navegada. Quero banhar. Quero chegar, mansa, em espuma branca e beijar suave a areia. Quero não precisar dizer, letra a letra, que eu sou como a onda, posso voltar, mas outra. Sempre parto, é assim. Sempre partem em mim, é assim que é bonito. O mar é de se ver. E de ouvir. E de mergulhar. E de provar. Eu como e bebo mar no sabor do caranguejo. Aos que imaginam muito trabalho, respondo: eu não faço contabilidade do meu prazer. Gosto do gosto escorrendo no queixo, dedos lambuzados, pele com cheiro de sol. Gosto da carne escorregando, firme, na língua.  Gosto de sugar o sabor em pequenas doses e antecipá-lo, imenso, em mim. Assim que vivo, talvez, sôfrega e pacientemente reencontrando o prazer em pequenos acertos. Com o mar,  dentro. Eu dele, ele de mim. “Perto de muita água tudo é feliz”. Eu sou.




Não temo as partidas, já fui porto, navio, viagem, marinheiro.  E oceano.


10 coisas que eu digo: 1. Bora; 2. Affe!; 3. baby; 4. Virge!; 5. Eu te amo; 6. Me manda um email lembrando; 7. Por favor; 8. Abandomship; 9. Levante as mãos, Izma! (ou "viva, virei lhama outra vez!" ou "isso é que é voar"...quem não curte a Nova Onda do Imperador que engula a primeira pedra); 10. Modus que (qual outro víciOPa charme você percebeu na minha comunicação?)

* E, de repente, a gente encontra consolo no inesperado. Na canção desconhecida que nos obsedia. No verso, simples: "em cada verso há um homem que não chora e o futuro é o sítio onde se mora" (Carlos do Carmo)


2 comentários:

Ingrid disse...

mas isso é muito bom!
beijos.

Turmalina disse...

Que delícia de texto...aliás acho muita coisa delícia nesta vida.
Seu primeiro parágrafo me pegou de jeito, adoro piscar (tem lá seu charme), bordar me traz calma, me comunicar em outra língua é sempre um prazer, um desafio que eu aceito sempre que posso, sou daquelas que pega até o sotaque da região.
Começo conversa fácil, fácil, se estiver sozinha troco idéias até com as paredes.
Marcenaria é claro que sei, aprendi na escola.
De tanto gostar de aprender até ourivesaria sei fazer.Poesia tentei mas não gostei do resultado...muito piegas.
Limpo forno e fogão com requintes de detalhes. Arroz, arroz de forno, risoto, aprendi a não errar.
Só não sei dançar!
E o mar? Ah...o mar, não cabe em mim de tanto amar...
Beijos lindona.

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