sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Não é sobre 20 cursos de estuprOPA

Então tem um tal moço americano que queria ir ao Brasil dar um curso sobre como pegar mulheres mesmo que elas não estejam com vontade. Ou seja, em português claro: um curso de como estuprar.

E, olha, nem se está precisando de ajuda na área, a cada ano são 527 mil tentativas ou casos de estupros consumados no país Repetindo: a cada ano 527 mil mulheres são vítimas de violência sexual seja por um familiar, um amigo, um vizinho, por desconhecidos num beco escuro e também por aquele cara-na-balada--que-parece-descolado-mas-não-aceita-um-não-como-resposta.

Neste cenário a gente já pode até considerar que o moço americano nem é um problema tão significativo assim, né? Porque mesmo as feministas estão se posicionando tão enfaticamente? Olha, eu não sei de todo mundo, vou falar aqui do meu cantinho mesmo.

A primeira coisa é que eu não tenho nenhuma raiva especial em relação ao moço em questão. Não acho que ele é O INIMIGO a ser combatido. Acho que ele está no cenário. A existência dele e de um curso assim é possível apenas porque a nossa sociedade trata a mulher como um ser “menos que” o homem. Menos humano. Menos sujeito de direitos. Ele está na paleta entre o estuprador em série e o cara que faz piada com os amigos dizendo que “mulher quando diz não, é talvez, e quando diz talvez, é sim”. Tem um texto da Renata Lins que eu considero sensacional e diz: "Gente de bem mata mulheres. Muitas. Hoje. Aqui. A gente vive numa sociedade que permite que “gente de bem” mate mulheres. Mais: que constrói caminhos para isso".

Então a minha questão não é ele e seu curso (que pode até acontecer por teleconferência ou vir pelo correio). O lance é a gente, como sociedade, marcar posição indicando que as idéias que ele propaga não convergem com o que acreditamos. Não constroem a sociedade que não temos, mais queremos ter. Incomoda-me, muito mesmo, o mas que sempre parece acompanhar as diversas reivindicações feministas. Como se fosse sempre um exagero da nossa parte.

Proibir a entrada dele ou a não permitir a realização do curso não vai mudar qualquer coisa prática imediata na vida de ninguém. Sequer posso garantir que vai haver umzinho estupro a menos, por exemplo. As mulheres vão continuar se sentindo inseguras. A violência vai continuar. Pior, a legitimação da violência nos discursos cotidianos (mas porque ela estava sozinha? Porque essa roupa? Porque bebeu? Porque não é virgem?) ainda vai estar na novela, no programa de auditório, na conversa na mesa vizinha, no papo dos colegas de trabalho. Mas não é porque reconhecemos a limitação de uma ação frente a um cenário mais amplo que determinadas ações perdem seu valor.

Eu acho que as estruturas mudam na dinâmica dialética entre matéria e simbólico e um país dizer NÃO, não aceito esse discurso aqui, ainda mais um país jovem e que está se construindo - como o nosso, implica em um ganho não imediato com implicações que nem se pode dimensionar. É o sentido implicado nessa negativa que importa. O não, não pode entrar vai na contramão de toda uma cultura de apaziguamento e consentimento em relação à violência contra as mulheres. Seria um não muito bem vindo.

Acho que a gente pode e deve fazer escolhas políticas. Acho que negar entrada a um discurso de violência é, sim, uma atitude política necessária. É hora de parar de minimizar as questões relativas à violência contra a mulher. É hora de tirar a luta contra o machismo das notas de rodapé.



8 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

aaa

Renata Lins disse...

que texto ótimo, Lu.

Luciana Nepomuceno disse...

Eujuro que a Fal do drops tentou colocar esse comentário aqui: "Assim, ó, nao precisa importar que a gente tá com a despensa cheia de cretino. Acho que a regra da diplomacia internacional tem de ser assim: que cada país fique com seus próprios cretinos. Vamos importar só alfajor, vinho verde, papel de carta de Snoopy e o Mads, claro. Obrigada, de nada."

iaiá disse...

hahahahahaha Fal teve o melhor comentário ( o que vale é a intenção)

Ale disse...

Matou a pau! :) Texto maravilhoso, assino cada linha!

Liliane disse...

Por isso que vc e a grande Líder me representam

Maffalda disse...

Aqui apareceu o "prove que você não é um robô", o dispositivo anti-Fal do seu blog!

Marissa Rangel-Biddle disse...

Fal e Borbs = amor.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...