sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Míope

Agora é semioficial (não é oficial porque não fui ao oftalmologista ainda): minha miopia voltou. Não posso garantir que voltou sozinha, mas ela, pelo tempo de intimidade que já gozamos, eu sei que está por aqui. Fiz aquele teste: cobre um olho, lê as placas, cobre o outro, tenta ler... e é certo que não consigo ver com o olho esquerdo o que vejo com o direito (isso não é uma metáfora política). Demorei a fazer esses gestos simples, mesmo com todas as bandeiras desfraldadas e os sinais contínuos. Porque? eu não queria saber. Mas o mundo borrado vinha vindo. Eu já não conseguia ler ou escrever sem uma dor de cabeça que não me é usual aparecer. Não conseguia estudar e ficava inventando desculpas pra legitimar o procrastinar das atividades urgentes. E disfarçava pra mim mesma sobrecarregando o outro olho. Enquanto estivesse lendo as legendas na televisão estava tudo bem - eu me enganava. #SouDessas

O olho que já não vê bem é o esquerdo. O que não te olha de frente e que teima em escapulir buscando outros horizontes. Quando fui fazer a cirurgia de correção da miopia o médico me propôs fazer junto a cirurgia pra "arrumar esse defeitinho". Eu ia até "ficar mais bonita" Eu não quis. Esse defeitinho era meu. Era eu. Passamos tanto tempo juntos, aparecemos em tantas fotografias, paqueremos tanta gente, eu não estava certa se me reconheceria sem ele. Hoje fico meio entristecida sem saber se a cirurgia que me tiraria o desvio me deixaria sem miopia por mais tempo. Porque é certo que esse olho tem trabalhado cada vez menos sem a lente de silicone que o mantinha mais quieto. E, talvez, esse pouco agir o tenha feito ir desistindo de ser - ou ver - sabe-se lá.

Estou escrevendo aqui pra ver se me animo a fazer alguma coisa que não sei ao certo o que é. Mentira, sei exatamente: achar um médico, fazer exame, comprar óculos. Só não sei é o como. O quando. O com que dinheiro (pois sim, a materialidade das contas bate a porta e, lógico, eu vou ter o dinheiro, mas, né, não vou ter outras coisas).
Mas, principalmente, não sei direito como lidar subjetivamente. Porque a cirurgia foi num quando muito específico e trouxe implicações metafóricas muito expressivas que, agora, tá sendo complicado olhar pra trás e ressignificar.


Enfim, escrevo aqui e percebo a ironia, escrevo pra ser vista, mas escrevo cedinho, quando nem todo mundo vai ver. Ou seja.

***********

Há muitas razões pra se gostar do outono e mais essa: hora de dormir.

Anotem aí: e tão bom quando é bom.

Tenho medo. De quê? De que não ver seja, novamente, não me ver.


2 comentários:

Juliana disse...

<3

Fal, a Mal disse...

Mas a gente sempre vai ver você, meu bem. E pegar na sua mão.

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