sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Status e Reciclagens

A escolha é sempre difícil, ninguém nos contou a verdade.
Ou bem a dor de estar viva e sentindo.
Ou bem a beleza de não sentir mais nada: morre-se.

Escrevo, então, porque o que mais pode fazer quem tem o corpo no exílio? Restam-me as palavras porque não posso estender a minha mão e tocar o dorso da tua, numa intimidade de apontar o mundo; restam-me as palavras porque já não esbarramos os ombros quando andamos distraídos de nós mesmos. Restam-me as palavras porque não podemos, de costas um pro outro, ver quem é mais alto nem podemos medir nossas mãos e ver a minha se perder na tua. Restam-me as palavras porque já não refogamos alho juntos nem fazemos espuma embaixo do chuveiro. Não posso saber tua pele, cheiro e gosto, restam-me as palavras. As palavras são insuficientes, eu sei, eu sinto, mas são o que resta e, assim, são o que melhor posso ser.

Cemitério dos Prazeres - Lisboa - setembro/2014

(das reciclagens) Sabe aquela pessoa que você não só gosta de ser, mas tem até um certo orgulho? Pois é, gosto da luciana que aprecia Woody Allen, admira os autores russos e os cineastas italianos, que se emociona na Pinacoteca de São Paulo, ruboriza, usa palavras como obsedante, parcimônia e digressão rotineiramente, é amiga dos laminados, escuta Cartola, Luis Gonzaga e nunca, nunca esquece a voz suave de Nana Caimmy. Essa luciana, que aprecia adequadamente um bom vinho, se queda embevecida com os azulejos e não só conhece Capitu e Lori como já leu todos os romances do autores que as criaram. Essa é a luciana que me agrada apresentar pra vocês gostarem. Mas tem o Lado B. Sim, como diria minha amiga Aninha, eu tenho um lado Chacrete. O que não se contenta em sorrir, gargalha. O que aprecia lençóis de algodão egípcio 800 fios, mas prefere os de cetim. O que fala alto, se exalta e gesticula. A luciana que gosta - e muito - de salto vermelho e decote. A que anseia ter a coleção de filmes do Buster Keaton e cartazes do Almodóvar na sala. A que se emociona com Grey´s Anatomy. A que lê Tess Gerritsen, J.D. Robb e Arthur Hailey - e curte. Que assiste O Diário de Bridget Jones e A Nova Onda do Imperador decorando os diálogos. A Luciana que bebe cerveja com torresmo de tira-gosto no Mercado. Que segura a costela de porco com a mão e depois lambe a pontinha dos dedos. Que adora andar de ônibus (se não estiver muito lotado, claro). Que esbarra.  Que fala pelos cotovelos porque bebeu água de chocalho. Que anda por novas paragens com olhos deslumbrados e infantis, apontando todas as belezas que encontra - e são muitas. Pois é, tem essa luciana aí. Essa que canta a plenos pulmões:


Aí a personagem, (tão humana!), diz que tem uma bússola moral avariada e você pensa: também eu.

Sujidade, marado, elevar a fasquia, aluguer, morada, estaladiça, acidente de viação, uma conversa e peras, estou lixado. Quando uma língua tão minha tornou-se tão outra?

Queimo tanto a língua que fiquei pensando por quanto tempo ainda terei papilas gustativas.

Eu sei que não devia, mas de vez em quando arranco a casquinha da ferida com a unha.

Escrevo assim: eu gostava de ficar com você. Mas já não sei em que língua conjugo esse verbo.

Status na madrugada: flertando com o abismo.

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