quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Sentido

O que eu nunca vou esquecer são seus olhos, tão vulneráveis. E minha sensação de impotência. A certeza de que não ensinei nada pra ele. E o anseio avassalador de que ele consiga, embora nem eu nem ele saibamos o quê. A certeza daquela dor, minha, sua, de todos, que seria, que era, também, dele. A dor de não conseguir. De não bastar.

Eu lembro de todos os passos que dei pra trás, me afastando de suas mãozinhas, de seus abraços, para que ele desse mais um passo, só mais um, um pouco mais, venha mais longe. E eu via aquela incompreensão, o andar feito pergunta: porque minha mãe nunca está ao meu alcance? E cresce tão rápido e eu continuo sem poder fazer nada a não ser me afastar mais um pouco para que ele possa seguir andando, procurando, crescendo, sendo. Eu faço espaços: pra ele, pra mim, espaços imensos cá fora pra não saber os abismos, meus e dele.



E a sensação de só saber os nublados. Eu vejo mães e elas parecem sempre saber o que fazer. Eu vejo mães e elas são amorosas e presentes e autênticas e eu sou só eu. Eu e o meu silêncio. E essa espera. De que apenas eu seja, senão o bastante, o suficiente. E que, pra ele, faça algum sentido.

Confesso que, às vezes, queria mais um daqueles momentos em que ele, meio febril mas já medicado, deitava a cabeça no meu ombro e seu cheiro de filho me invadia e eu sentia tanto, tanto desse amor impotente e me permitia e ficava ali, pra ele alcançar, você chegou, chegou, vivaviva, e no meu pensamento rodopio com ele no meu coração, como fazia no seu primeiro ano e depois, de novo no chão, os vazios que seguem para que os possamos cobrir de dizeres que nunca, nunca são tudo, não há palavra que baste.

Eu só fico querendo que, um dia, ele possa dizer. Dizer-se. E que todo esse amor que não lhe basta, faça algum sentido. 


2 comentários:

Lidix disse...

"E a sensação de só saber os nublados. Eu vejo mães e elas parecem sempre saber o que fazer. Eu vejo mães e elas são amorosas e presentes e autênticas e eu sou só eu. "

Foi a coisa mais verdadeira que já li.

Renata Lins disse...

Esse é daqueles que entram direto naquela fresta tenra e descoberta, e o choro vem de vez. Porque né. Insuficiências. Faltas. Ausências.
Um amor tão fundo que dói.
E esse ano em que eu e meu adola estamos nos desentendendo e aprendendo a lidar com a fase adola, ele me deu um abraço longo e apertado no dia das mães. Eu quase que fiz "ufa". Eu ainda estou aqui. Você ainda está aqui. Sigamos.

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