sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Dois Para Dançar o Tango

Foi um tango. A sala com tacos de madeira. Meias, pra deslizar. De olhos bem fechados, apenas sentir. A mão na curva das costas. A coxa empurrando, firme, a minha. O roçar dos rostos. A música como um convite. Já disseram que “o tango é um pensamento triste que se pode dançar” e eu acrescento que, ao dançá-lo, o tornamos beleza e já não dói. Tanto.




Eu também tenho minha terra vermelha de tara, Scarlett. Só que, menos estável, é azulzinha, vai e vem e sabe a sal.

Eu queria colocar a cabeça de vocês, todas, no meu colo e dizer que esse lance aí de corpo bonito e desejo não são em pareamento unívoco e que há tanto beleza e gozo em apenas ser e sentir. Mas eu sei que meu dizer não basta e me calo em melancolias.

Às vezes as pessoas dizem: ah, mas você falando de (complete aqui: ciúme, fim do relacionamento, padrões do corpo, sexo) não vale, você é “bem resolvida”. Eu não sou bem nem mal resolvida. Eu sou em processos. Como qualquer um. E sei que não é fácil ser quem se anseia ser. Muitas vezes dói. Mas é ir definindo e sendo definida pelas escolhas. Escolher o bom. O riso. É o passo que faz a estrada e a estrada quem vai dizendo o passo. Então, fui no traçado de desvendar, em mim, o lance d "o desejo do desejo do Outro". E uns anos de divã, outros de cama deram o tempero de me saber sujeito e assujeitada. Me permitir.

A mochila, pequena, basta pra recolher as poucas coisas que foi deixando na casa dele: pente, algumas calcinhas, dois vestidos, um casaco de outono, uma sandália. Talvez um brinco ou dois, que já nem lembra onde colocou. Mesquinharias que não justificam meia dúzia de horas de viagem. Tenta lembrar porque precisava tanto vir. Os discos e livros, talvez? Sabe que não, não os levaria, ele gosta mais de os ter do que ela. E como separar os que foram comprados para apreciarem juntos? Suspeita que, um dia, vai rir um tanto dessa viagem. Tanta estrada e uma mochila tão leve. Ou talvez não ria, pois lembra que não há unidade de medida para adeus. Antes do riso, o silêncio. Anos empacotados em uma pequena mochila. É só isso? Ele se surpreende. Ela, não. Sabe que é só. Quem não é? Sabe, também, que não adiantaria fazer a piada. Ele não entenderia. Esse era apenas mais um dos abismos. 



São precisos dois para o tango. E mais. Entrega. E antecipação. Esse enlace de corpos que se adivinham, um instante antes de ser. Um jogo de quase. Deixar o corpo um pouquinho mais, pra roçar.Tirar o corpo um pouquinho antes pra não esbarrar.Quase encostar. Perto. Mais perto. Sai. Volta. Esfrega. Desejo. Distância. Olhar além. E reconhecer que mesmo ali o agora da sedução abriga a melancolia de uma solidão, depois. Talvez, por isso, se tenha dito que "dançar tango é algo grave e profundo, quando se dança não se ri". São necessários dois, suspeito, para marcar o vazio, a distância, a geografia da ausência. Dois para dividir o peso da impossibilidade do encontro. E para vislumbrar o encanto, claro, dos momentos em que a gente acredita que sim. Quase. 



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