terça-feira, 9 de setembro de 2014

Doce

Eu nunca fiz doce. Dos de comer, com certeza. Do outro, quem sabe, mas espero que não. Provavelmente porque não sou das formiguinhas, nunca lembro de comer nem as barras de chocolate que, vez ou outra, insisto em comprar. Mas. Se a vida apresenta convites, eu acolho. São dois pra dançar o tango, eu sempre soube e dois pra fazer a vida mais doce, pelo que estou aprendendo.

A fruta da vez é a pera. Porque? Porque é o que tem. O bem querer tem disso, saber aproveitar o momento. Um tempo enorme em descasca, corta, tira as sementes. O dedo vai doer, vai fazer uns microcortes na ponta do dedão, mas compensa pelos beijinhos ocasionais e a trilha sonora com Cassandra Wilson. E, claro, pelo cheiro da costeleta que grelha ali pertinho.



Açúcar na panela. Água, sim ou não? Toda uma filosófica discussão de doces passados e caramelizações da vida. Votamos sim. Água, pero no mucho. Sobe a fervura. Eu rio da metáfora. Olhares interrogativos me acompanham. Já estou quase acostumada a sempre explicar: do que eu rio? Do bom da vida. Um pouco de Vinho do Porto. É forte, mas desce suave. Como as mãos que vão colocando as peras na panela. Saber ser suave, o bem querer também tem disso. Ritmo. Jeito. Todos os pedacinhos de pera ali, borbulhando.

No por enquanto das borbulhas, jantar. Fica a dica da melhor salada: tomate, cebola, cenoura ralada e beterraba em fatias mesmo finas. Azeite e sal marinho. A costeleta no ponto, o arroz soltinho. Bebendo sidra à moda das Astúrias. A Cassandra já está rouca? Convida-se a Mônica Salmaso.

A ideia: porque não um pouco de uísque? Eu não gosto. Com gelo, sem gelo, água de coco, jisuis, quantas certezas você tem. Voltando: não é pra beber, é pras peras. Ah, parece bom. Uma dose, grande, de inesperado. No doce, no relacionamento: recomendo. Vai se criando um dourado ali, entre uma borbulha e outra. Os pedacinhos de pera boiam enquanto a colher gira, cuidadosa. Os pequenos cuidados: cortar o presunto, puxar o lençol, secar o cabelo, as miudezas que põem morno no peito e não deixam o doce desandar.



Olha, será que não dá pra fazer uma sobremesa com a pera que vai cozinhando? Com gelado? Quer? Quero. Coloca na taça uns tantos de pera, duas bolas de sorvete. Quente no frio, a língua fica feliz, mais lembranças: mão fria, coração quente.

Já bebemos sidra que baste? Coloca o resto na panela! Será? Sim, sim, sim. Risos. Então vai. Mexe mais um pouco. Baixa o fogo. Os pedacinhos de pera, enfim, se conformam com o fundo da panela. O dourado vai amorenando. Deixa o doce só no xodó do fogo baixo. Chamego lá e ló, vamos pro sofá esperar. Deixa o tempo passar, o doce apurar, o blues na vitrola, beijinho no cangote, vamos espiar vinil na net? Mas sem esquecer o doce. Mexer. Sua vez. Minha vez. As peras se desmancham. Engrossa. Sua vez. Minha vez. Sua vez. Prova. Tá mesmo bom. Esperar arrefecer, assim, nos preparos do deitar: banho, afago, camiseta, escova os dentes. Despeja com cuidado, um tanto em cada frasco. Qual o que você vai levar? O menorzinho. 

Olha a hora: foram muitas. Umas quatro horas de cheiro bom pela casa toda. Umas quatro horas pra lembrar em tantas outras horas de saudades. Umas quatro horas dando sabor ao tempo. E ainda há doce. 




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