quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Como esquecemos Malta?

O comentarista do jogo diz que os jogadores do Coritiba estão correndo errado. Olha, resumiu minha vida. E meu estilo. Inclusive de corrida.


Sim, nós estudamos juntos. Bom, não exatamente juntos. Há tantas distâncias na meninice. A sorte é que a memória faz véu. Adultecemos. Mas, antes, espaços. Somos tão outros. Outra sorte é o amanhã. Que chega. Bom, estudantes. Mesma escola, mesma classe. Mas nos seus dez anos o universo era uma mochila maltratada, bola, jogo de bila, bicicleta e umas revistas em quadrinhos que eu esticava o olho pra saber quais. E nunca. O meu universo? Quase sempre, ele. Papéis de carta. E colecionar rótulos. Até que um dia. Dever de casa. Em grupo. Todo mundo na minha. A mesa da cozinha cheia de enciclopédias, pernas curtas, cadeiras vizinhas, as cabeças quase encostadas lendo aquelas letrinhas miúdas. Malta. Uma ilha, né? É. E em nenhum outro tempo ou lugar fui mais feliz do que naquela ilha. Aquela ilha era seu cabelo caindo na testa. E os dentes que mordiscavam a tampa da caneta. Aquela ilha era a letra caprichosa na cartolina amassada. Amarela. A cartolina era amarela. Nós, na ilha, e as descobertas. Malta pode vir do fenício: Maleth, ou seja, paraíso. Claro que veio. Que dúvida. Ele ali, na minha cozinha, braço encostado no meu. E eu imaginando o futuro dos meus papéis de carta. Mar Mediterrâneo. A felicidade é azul. Desejando esse mergulho. Era assim o depois: permanecer. É difícil fazer planos quando o agora é a pele que se quer encostada na pele que é nossa. Meninos, vocês querem sorvete? As mães podem ser tão erradas. Mas eles queriam. Ele quis. Cadeiras que se distanciam. Viagens. Exílio. Juntamos material, dividimos tarefas, comemos o sorvete, partidas. Apresentamos o trabalho. Já nem lembro a avaliação que tivemos. Fui esquecendo. Minha mãe jogou fora os rótulos, podia juntar inseto. Os papéis de carta, em alguma gaveta, perdidos. Nunca mais tanto azul. Nunca mais um nós e uma ilha. Cresci. Aprendi solidões. Frases de efeito. Outros meninos, porque não. Universos. Plural. Mas quando não há lua e o marido de agora em abraços repete Bogart, eu penso: é certo, mas Paris não é Malta.


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