quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Pequenas Alegrias

São as pequenas alegrias, sabe. Aquele jeito de franzir a testa. A mão que nem percebe brincar com o meu decote. A carinha piscando na mensagem. Os cds com sua letra, os livros sem dedicatória. A pergunta: e vamos beber o quê? Aquele dia na represa. A flor roubada. A lua, enorme, pela janela. Os fogos na varanda. Todas as noites em que durmo no seu abraço.

Fulanx diz que vota em Sicranx mas vai votar mesmo é em Beltranx”... aquele momento em que o fiscal do fiofó alheio estende sua área de atuação.

Você está com fome e cheia de coisas mexidas na geladeira. Aí você refoga o restinho da cebola, uns alhos, tudo na manteiga. Quando estão molinhos dá aquele banho de vinho branco (bebe o resto), coloca o restinho de brie (bom porque é macio), de queijo da ilha (porque é gostoso) e de queijo flamengo (porque tem, ué). Uma colher de creme de leite (você nunca prometeu que fosse saudável) e mexe, mexe, mexe. Sal e tal. E as ervas da Debs. Voilá, você não tem mais fome. Sendo que você sou eu, claro.


Eu sinto uma diferença entre o dia em que não faço nada e o dia em que não consigo fazer nada. No dia em que não faço nada as horas passam e eu passo por elas, como aquele banho de mar, gostoso, em que a gente só fica lá, em pé, e deixa as ondas lamberem o corpo. No dia em que não faço nada há prazer nos vazios, sorrisos sem motivo e as coisinhas miúdas estão ali, feito jarrinho de girassol na janela, lembrando pra que lado fica o morno. No dia em que não faço nada não há culpa, solidão ou angústia, não há espaço sobrando na cama, não há páginas em branco zombando, não há louça na pia ou roupa na máquina esperando. Só a vida, divertida, esquecendo o relógio. Nos dias em que nada consigo fazer, não. Há peso. Escombros. No dia em que não consigo fazer nada sinto as pernas cansadas, areia movediça, os olhos embaçam, há fome, ocos, esquinas escuras. No dia em que não consigo fazer nada me sinto pequena. Me lembro tudo que não sei. Que não posso. Que não faço. Nos dias em que não consigo fazer nada as horas não passam, demoram-se rindo da minha inabilidade em existir. As coisinhas miúdas tornam-se imensas, a casa em bagunças, o peito em desalinho, o riso em ausências. Não faço nada, sou nada, desapareço.

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