sábado, 30 de agosto de 2014

Onde Morar

Como se fosse fácil. Como se fosse sempre. Como se fosse antes. Como se fosse leve. Até que. É estranho quando dói tão intensamente e por tão pouco tempo. Uma dor-queimada. Devasta e prepara a terra pra novas plantações. Mas não, a queimada, entre uma coisa e outra, vai matando por dentro. E eu ainda sei o riso em mim, mesmo quando ele se disfarça de silêncio. É uma dor fogos de artifício, talvez. A gente não consegue desviar o olhar, prende a respiração e suspeita que não vai esquecer nunca aquele zunido. Até que acaba, dispersa a fumaça e o céu ainda está ali, as estrelas brincantes, o escuro mistério e sua lua promessa. Eu sei, a noite vai ter lua cheia.



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Algumas pessoas – queridas e bem-intencionadas – às vezes me perguntam o que eu vou fazer pra continuar morando aqui (aqui = Europa) depois que concluir o doutorado. Costuma ser um choque quando eu respondo que não tenho intenção nem vontade de fazer qualquer coisa nessa direção (de morar, né, terminar o doutorado eu ainda pretendo). Não quero morar na Europa. Quero morar no Brasil. Mais especificamente, quero continuar morando no Nordeste (na verdade queria morar na estrada com ponto de encontro no nordeste, mas estamos falando da vida real, sem ganhar euromilhões).

Não é que eu não goste de estar aqui. Gosto. E muito. Pensa aí, uma vida praticamente sem insetos (sério, todo esse tempo por aqui e só vi uns mosquitinhos bobos no verão). Praças e parques. Azulejos.  Arte na rua. Transporte público legal. Museus interessantes e grátis aos domingos. Azulejos. Clima agradável. Comida gostosa. Eléctricos. Esse monte de miradouros. E eu já falei dos azulejos? Então, gosto muito. Um pedacinho do mim sempre sentirá saudade e desejará voltar. Mas.

Não é que eu ache o Brasil intrinsecamente superior ou melhor. Eu não desconheço as dificuldades. Os perrengues. Os absurdos. O transporte público inexistente. O calor insuportável. A variedade quase inacreditável de insetos. Mas. Outro. 

Minha preferência (que combina com a possibilidade, aliás) tem estreita relação com o que considero casa. Minha pátria, minha língua, disse o Caetano e, olha, estava cheio de razão. A sensação de “aí, sim” eu só tenho no Nordeste, onde a piada é rida mais cedo, o sentido ecoa mais fácil, os significados foram tecidos em mar e aboios. Me sinto em casa quando escuto o ritmado na voz. Me sinto em casa quando abro a janela e o riso alheio se espalha, íntimo na melodia, mesmo desconhecido em conteúdo. Me sinto em casa quando passo na rua e umas poucas palavras de conversas esparsas me chegam. Me sinto em casa quando ouço o vendedor de chegadinho, quando escuto a gravação do sorvete e sua vasilha, quando enfileiro os termos tão nossos: xodó, chamego, cangote, lundu. Me sinto em casa quando alguém passa lá em casa só pra prosear. Me sinto em casa quando a sanfona é trilha. 

Aprendi, já faz um tempo, que depois que a gente põe o pé na rua fica sempre que nem a música do Djavan, faltando um pedaço. Estou preparada para os vazios, as saudades, as lembranças, os quereres. A lua minguando. Desde que. Aqui e ali, o vento me traga uma palavra espelho, uma palavra coberta, uma palavra abraço. 


Um comentário:

Juliana disse...

Seu post me fez lembrar de quando senti pela primeira vez esse " aí sim". Eu tinha passado uma semana em Curitiba, a cidade em que me senti mais deslocada até agora, e tinha chegado em casa na noite anterior. Aí fui resolver sei lá o que no centro do Rio. Eu parei num sinal da avenida Rio Branco e de repente veio esse " aí sim". O barulho dos carros, as pessoas, o clima, o trajeto...

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