terça-feira, 5 de agosto de 2014

No Pain

E vou me despedindo. Processo. Sentindo cá dentro as coisas se arrumando, se encostando na parede pra caber o que vem. Ando pelas ruas e suspiro. Resgato o olhar de deslumbre dos primeiros dias, tudo sabe a encanto. A rua sempre sombreada. O varal na frente das casas. O cachorro vizinho, que já me saúda. O fogão trepado. O ritmo da fala. A cidade tão unicamente colorida em suas fachadas. Os sabores dos queijos. As vistas dos miradouros. As pracinhas ocupadas. As ruas imprevisivelmente desertas após dobrar uma multidão. O azul. O azulejar da vida. O meu quintal. Meu jardim. Da estrela. A maior lindeza do meu jardim são as pessoas. Que deitam na grama, ensinam as crianças a andar de bicicleta, fazem piquenique, falam baixo, riem alto, espiam os patos. O meu jardim tem cinema ao ar livre, apresentação de flamenco e quarteto de jazz. Tem cerveja gelada, um lance que parece crepe, mas que chamam tripa e um hambúrguer delicioso impossível de comer sem fazer enorme bagaceira. Tanto que aprendi a te amar, Lisboa. As estações de metro. As ladeiras. Calçadas escorregadias. Esplanadas. Tanto amor no vir a ser saudade. Vou me despedindo. Sentindo a dor devagarinho, antecipando outros risos além-mar. Um dia de cada vez. Quando chegar a hora, estarei pronta. Levantar âncora, já vou ensaiando a fala, só espero que a voz não me falte.



E eu que tinha esquecido que tem bunda livre no filme Planeta dos Macacos de 1968? 

Aquele momento em que você vai rever um filme e queria que todo mundo legal estivesse fazendo isso ao mesmo tempo pra você ir comentando.

Uma coisa que sempre me impressiona é a tranquilidade com que um monte de gente tem certeza para afirmar - a partir de informações limitadas, como saber uma única coisa sobre alguém - sobre o que os outros pensam, sentem e o que esses outros fariam em uma situação hipotética.

Amar é tão solitário, vocês não acham? Aquilo tudo que a gente não sabe dizer, todos aqueles motivos que a gente não consegue elencar (ou não consegue parar de elencar, o que dá no mesmo), o olhar único e intransferível com que vemos nosso objeto amado. E a reciprocidade não muda nada. Porque não amamos em encontros, mas como uma sala de espelhos.

Status: pisando em falso.

Um comentário:

Anônimo disse...

Lendo sua predespedida me vi ai com vc. Obg pela experiencia maravilhosa da Lisboa encatadora.
Desejando nosso retorno, mas pra ai
Luana

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...