domingo, 17 de agosto de 2014

Lisboa, minha e de quem vier, de quem quiser

Eu preciso confessar: tenho ciuminho da “minha” Lisboa apinhada de turista. Tenho a arrogante sensação de que eles não a apreciam o tanto que ela merece, tenho vontade de segurar uns pelos ombros e dizer: “ei, anda mais devagar, olha aí na esquina que azulejo lindo, que maravilha de calçada, que espetáculo que é a luz nesse Tejo, comuassim vocês não vão descer do 28 pra apreciar esse jardim/igreja/museu/whatever?”. Eu disse arrogante? Devia ter dito imbecil. Porque Lisboa é uma cidade que se dá ao desfrute. É linda quando mais vazia, percorrida em descansadas caminhadas ao longo do rio ou na Baixa, mas é igualmente encantadora com as ruas em riso, multidões nas esplanadas. Lisboa não se ressente de cores. Não se ofende em ruídos. Tem largos e praças e espaçosas ruas para os movimentos. E tem, aqui e ali, convidativas e discretas esquinas pra gente descobrir uma estreita rua em solidões. 

Eu fico meio agoniada conversando com alguém que está há 3 dias em Lisboa, só anda de táxi e diz “Castelo de São Jorge? Não sei, nós fomos, amor?”. Porque, né, quando eu vou turistar em uma cidade passo dias inteiros lendo sobre seus pontos turísticos principais, formas de locomoção, peculiaridades culinárias, comportamentos aceitáveis e tal. É claro que o meu jeito de fazer as coisas é melhor, não? Não, né, Luciana. Lembra aquele negócio de não usar a sua régua pra medir as outras pessoas? A agonia é minha, eu que dê conta dela e pare de julgar o prazer alheio. As pessoas tem seus diversos jeitos de se relacionar, de obter prazer, de estar nos lugares e com pessoas. Não existem relacionamentos melhores ou uma forma certa de amar ou fazer turismo – devia ser simples, mas é tão comum julgar e hierarquizar que eu quase me esqueço. Por isso hoje eu passei a manhã na rua. Distribuí sorrisos. Dei inúmeras informações. Pra pessoas mais curiosas, ofereci uma ou outra sugestão de uso de transporte público ou lugares interessantes de conhecer. Fui pro meio da muvuca e respirei diversidade. Recomendo.


Uma coisa que eu gosto imensamente nos faroestes antigos são as cenas em que "nada" acontece. As não-cenas. Tipo o moço com o cavalo em marcha e uma musiquinha. Ou gente andando. Fumando. Acendendo uma fogueira. Também do lado de cá da tela. Apenas estar. 

Abrir mão do "melhor" e do "certo", dói mas compensa. Eu troquei as certezas e as verdades definitivas pelo xamego, que também dói. Mas às vezes não. 

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...