sábado, 23 de agosto de 2014

Corda Bamba

 Quando fui deixando de lado as expectativas do que o outro deveria fazer pra eu ser feliz e comecei a prestar atenção no que ele estava fazendo, cotidianamente, tchanrãn, fui me percebendo - na falta de uma expressão mais corpo menos alma - já bem feliz.

Eu lembro do meio susto quando você disse: chego. Lembro da minha roupa, escolhida com vagar e colocada às pressas. Da frase: sou o português nervoso em pé, à porta. Lembro de como me senti tão confortável. De como ainda me sinto.  Não lembro uma palavra do que falamos. Mas lembro da voz. De desejar que a noite não acabasse. De ficar pensando como seria quando. Lembro do movimento das suas mãos, dirigindo, gesticulando, comendo. Lembro do jantar. Comi polvo. Havia vinho. Tinto. Do retorno, devagar, todas as paradas para cerveja e mar. A rota do Estoril nunca foi tão linda mesmo quando se via pouco. Lembro como você lembrava tanto e eu, confusa, esquecia mais. Das luzes na ponte. Das últimas cervejas. Dos primeiros beijos. Lembro sempre, talvez para ocupar o espaço dos anseios. Não olhar para o amanhã. Não contar com o amanhã. Sequer desejar o amanhã. Ser memória, não esperança.

É tão mais fácil quando não há mais o que esperar. Insisto, pra me convencer.

O que eu quero do amor não é mais a felicidade, é a alegria.

Palavras repetem-se como se pudessem ser estradas: te ligo depois. Durma bem. Também gosto de você. Um beijo. Uma conversa que não se sabe terminar. Uma vontade que se arrasta em calendários. Só mais um pouco, só mais um tempo, só. Mais. 

Seguro com as duas mãos meu guarda-chuva colorido e sussurro pra corda bamba: já estou pronta. 


2 comentários:

Danielle Martins disse...

Você até na corda bamba é segura... Ainda não sei querer só as alegrias do amor, ainda muito a aprender.

Fred Caju disse...

Tem até trilha do teu conterrâneo: https://www.youtube.com/watch?v=_3jtDZbci8E

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...