quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Cafuné e Outras Contradições

Das contradições: você está deitada, recebendo cafuné. Aí você quer dormir logo, antes da outra pessoa, pra dormir ainda recebendo o carinho, mas quer ficar acordada o máximo possível pra não perder nem um pouquinho do xodó.

Olho o espelho e lá está: um guarda-chuva vermelho, um engradado de cerveja, uma cicatriz na sobrancelha, dois olhos que não se encontram nem no infinito, um pôr-do-sol no velho oeste, uma rede, uma pilha de cartas, peitos, alguma saudade, panelas, um sertão e um bilhete – não dá pra ver direito se de trem, ônibus ou avião. Cabelos assanhados. Pele enrugadinha de tempo e molhada da chuva. E aquele vestido azul com cheiro de manacás,  como sabia a Adélia.

Aquele momento gostoso em que o outro te diz: livros, bethania, filmes, cama.

Depois do Nino Belvedere ou se eleva os padrões a níveis impossíveis ou relaxa e curte o que as ondas trazem.


Quando tudo for distância não lembrarei de grandes momentos, mas da miúda beleza cotidiana de acordar no teu olho.

Aquele breve abraço. Você tem pressa, está atrasado - e chove. Foram dias bons, eu sei, você sabe, toda a roupa de cama amassada no seu quarto sabe. E agora você está atrasado, eu estou pronta pra o avião, o táxi com a porta aberta, a chuva que é rotina na sua cidade e o breve abraço. Se tocasse um jazz podia ser um filme do Woody Allen, quase faço a piada, mas você já se virou, o tempo acabou, o táxi está de porta aberta, a mala pronta. E chove. Foram bons dias e agora o breve abraço. Adeus, eu penso baixinho. Você dá dois passos, volta indeciso, segura em meus ombros e pergunta: quando foi mesmo que a gente se conheceu? Eu sorrio, fico na ponta do pé, afago sua barba e beijo seu nariz, aceno pra você ir logo e entro rápido no táxi. Se houvesse tempo. Ou esperança. Se. Então eu diria: você nunca me conheceu. Não sabe que eu prefiro guarda-chuvas vermelhos. Não sabe quando eu queria ser a Nara Leão. Nunca me viu tomando banho de chuva nem comendo panelada no mercado domingo de manhã, não sabe do Sebastião. Não sabe que eu tomo meu café com leite mas sem açúcar, que gosto de viajar na janela, que preciso do mar. Você nem sabe que eu não sonho, que invento finais infelizes e que ainda rio baixinho quando penso como dizer mulher em francês. Não sabe que eu tenho medo do convite do vento e me encolho na cama, o barulho terrível no vidro da janela. O mundo todo dormindo e eu dizendo: estou com medo de ir embora no vento. Se houvesse tempo. Ou esperança. Se não fosse a geografia das separações. Se você não estivesse atrasado. Se não chovesse. Se. Sempre teremos as redes sociais, eu penso, eu rio, eu mando a mensagem, pensando no seu óculos nublado, a barba macia, as palavras por dizer.

Um comentário:

Lica disse...

oooooooowwwwwwwwww

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