terça-feira, 26 de agosto de 2014

Bem Querer Girassol

Aquele momento em que o passado bate a sua porta, você convida pra entrar e, enquanto serve café com bolo, repara que tudo que sente é uma ternura distante e uma certa alegria pela estrada escolhida. E, confesso, embora seja pouco generoso, também alívio. Por não estar lá. Ainda mais, por estar aqui. Eu pensava em mim como alguém que fica feliz com as escolhas que faz. Mas não é só isso, agora me sinto também uma pessoa que fez boas escolhas.

E aqui, já vai ser setembro. Mais um, nesse abraço que é porto. 




Um bem querer girassol. Grande demais pra ser o que é. Mas insiste. Colorido. Estabanado. Caloroso. Exuberante. Que só se sabe assim, voltando-se pro riso.

Gosto da cama bagunçada, do suor nos lençóis, da janela fechada, esse quarto que é sempre noite. Gosto da forma como os corpos se sabem um momento antes do sono, do morno de estar junto muito tempo, dos sons que se fazem íntimos. Gosto de caber na mão, do nariz no pescoço, do joelho entre joelhos, da ilusão. Gosto exatamente do agora, espaço sendo tempo, tempo sendo gosto. Gosto.

E tem esse moço no Medium. Que é tipo um Nino em cotidianos.

Aqueles dias em que o Sonny morre e a gente fica entre o suspiro do Brando e o uísque do Tom. 

Vieiras Gratinadas. Tem essa Luciana. Curiosa. Metida. Que vê programas de culinária e fica encafifada com a aparente gostosura da tal vieira. Porque, né, ela parece... voluptuosa. Essa Luciana olha e não sabe se é de comer ou afagar. Comida sexy, comida cama, comida pele. Paquera vai, paquera vem, nunca tem coragem de comprar. Quem anda a beira do abismo se acostuma com a vertigem. Até que um dia. Pois foi.  A curiosidade matou o gato e colocou vieiras no meu forno. Bem assim. Descongela. Separa concha e carne. Com carinho. Fé cega, faca amolada. Lava tudo, seca tudo. Aproveita pra cheirar, tocar, provar. Macia. Suspira. Tempera a carne com pimenta do reino moída na hora. Sal agora não, pra não perder a textura. Reter o líquido, o sumo, o gosto de ser. Manter-se úmida. Eu aprendo, eu aprendo. Mas ela pede companhia, eu escolhi camarão. Camarões. Que são facinhos de conviver. Joguei na água fervendo. Sabe como é, viver é muito perigoso.  
Deixei esfriar, tirei as cascas - gosto desse processo de despir os camarões – e mergulhei-os, peladinhos, no suco de limão siciliano. Uma hora e tal ali, no banho que muda tudo por dentro. No por enquanto, vou cortando umas tirinhas de alho poró que refogo em manteiga quente. E ali, naquela quentura cheirosa, as vieiras. Um tempinho de um lado, doura, outro tempinho do outro. Vinho branco. Subiu borbulhas? Vou colocando na concha, juntinhos, camarões e vieira. Na frigideira, um pouco mais de manteiga, farinha de trigo, vinho, mexo, mexo, leite de coco, mexo, aqueles espirais na frigideira me hipnotizam, ah, os símbolos. Monto bonitinho que eu também como com os olhos. E forno pra gratinar. Se fica bom? Com gosto de mar, de cama, de mais. 

Por um mundo em que se entenda as citações d’ A Nova Onda do Imperador. Porque tem hora que só resta comemorar: "oba, virei lhama outra vez!"


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