terça-feira, 29 de julho de 2014

Xodó em tempos de SMS

Eu não tenho: senso de direção, sentido estético, senso de equilíbrio. Algum senso comum. E quase nenhum bom senso. Me agarro ao senso de humor.

Fazer amêijoa a bulhão pato é muito fácil... se você não se importar com um gostinho de areia (se preferir a modalidade sem areia, continua fácil, apenas um pouquinho mais trabalhoso). É só azeite, coentro, vinho branco e tempo. E aquele gosto de mar.

Quando a gente percebe que é uma pessoa de âncoras, não de raízes.

Daí você respira fundo e coloca a última cajuína pra gelar.

Fico me perguntando porque assisto essa série pra adolescente. Aí percebo: eu gosto porque todo mundo fica pegando um monte de gente, mas esse não é o foco. Os dramas são outros, mas as pessoas não deixam pra lá a pegação por causa disso.  #MeIdentifico

Porque devia doer – e não dói.

Dinheiro não traz felicidade. Mas compra passagem aérea e paga hotel.

Sim, eu namorei por carta. Estava com essa saudade avassaladora, com essa fome do outro, com essa vontade de saber: como vai? o que você está fazendo? pensou em mim? então eu sentava e escrevia cuidadosamente uma carta. E, depois, talvez, passasse a limpo. Aí estava sem envelope, ia comprar, talvez no mesmo dia, talvez só no dia seguinte. E tinha que arrumar um tempo pra ir ao correio. Que demorava uns diazinhos pra entregar. Com sorte, não se extraviava. Daí a outra pessoa recebia, lia, se emocionava, relia, sei lá o que fazia mais. Talvez curtisse a carta um dia inteiro antes de responder. Ou dois. Ou mais. E tinha trabalho, tinha família, tinha amigos... Até que dava pra escrever. E seguia o mesmo processo: escrever, corrigir, envelopar, enviar, carteiro, eu. As palavras. Que, no primeiro momento, nem importavam no que diziam. Elas tinham valor de matéria, valiam por existir. Cada letra uma ação do outro em minha direção. Depois, sim, o conteúdo. Paquerar cada linha. Emocionar-me nas entrelinhas. Sentir a voracidade um tantinho aplacada. Entre o momento em que o ralo se abriu, querendo do outro (me dá, me diga, me ame) e o momento em que, de alguma forma, se respondeu a isso, o que eu fazia? Vivia, não é. Tinha que dar conta da ansiedade. Arrumar um jeito do tempo passar e de passar no tempo. Eu lia. Ouvia música. Via tv. Sei lá. Só sei que era um jeito de lidar com a demanda. Que envolvia uma angústia mansa e alguma displicência. Tinha também o relacionamento ao alcance do telefone fixo. Bem “mais rápido”. Dava a vontade? Eu telefonava. Quer dizer. Tinha que estar em casa ou esperar chegar em casa. E o telefone estar desocupado do lado de cá. Aí eu ligava. E podia dar ocupado. Do lado de lá. Ou a pessoa podia ter saído. Deixava recado. Ou ligava de novo mais tarde. Ou ligava amanhã - eu escrevo e rio, veja bem, a gente não conseguia falar hoje, sei lá, 20 horas e então deixava pra amanhã meio dia. Era outro tempo, era outra eu no tempo. Sem falar que, né, o telefone era da casa. Então a gente falava uma vez no dia (tá, um montão de tempo que tirava o resto das pessoas da casa do sério, mas isso é outra conversa). E, tchanrã, agora o bem querer e o SMS. Toda uma reorganização dessa fome. Como vocês fazem pra lidar com o bem querer do agorajáimediatamenteporquevocênãorespondeuainda? Com o me diga, me dê, me ame, e faça isso rápido? Eu ainda trabalho nisso e nem sempre com bons resultados (acrescente-se o gosto pelo drama, dez minutos sem resposta e eu vou do "morreu" ao "não me ama mais" e volto ao começo, váaarias vezes). Daí lembrar que o outro é, bom, o outro, né. Com outra vida. Outro ritmo. Outro tempo. Dele: o tempo, o ritmo, a vida. Que ele vai encostar na minha quando der ou puder ou quiser. E o que eu posso fazer é manter o senso. De proporção. Ou de humor.


4 comentários:

Juju M. disse...

Eu não faço ideia de como faz com essa coisa de Sms e Whatsapp! Receber um telefonema é quase uma jura de amor eterno. Saudades daquele charme de:
- Desliga você...
- Não, você desliga....
E pior ainda quando você escreve uma coisa fofa e recebe uma carinha de resposta! Você enterrando a alma ali e volta uma mera figurinha!
Foi-se o tempo. Pior que era o tempo do romance.

Maycon disse...

"( acrescente-se o gosto pelo drama, dez minutos sem resposta e eu vou do "morreu" ao "não me ama mais" e volto ao começo, váaarias vezes)"

ahahahhahaha super me identifiquei. E , sabe, agora fazendo cênicas percebi que tenho que ser meio que meu própria diretor. O drama tá lá, mas tenho que dar umas orientações: "respira", "espera um pouco", "relaxa", " você saiu da marcação". E nem é pra deixar de ser dramático, mas pra se ruma dramático melhor. Drama é ação, né?

beijos, Lu.

Anônimo disse...

Dos moldes de antigamentes ou de agora, o duro mesmo é qd o tempo do outro ñ é o q a gente espera.... e ás vezes a gente ñ espera...

Adoro seus textos.
Bjs
Luana

ANA CLAUDIA MARQUES disse...

Já passei por todas estas fases, e adorava as cartas, amava os telefonemas, e ia de zero a cem também. Sabe que sinto saudade? amar em tempos de internet não tem mais graça... beijin!

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