terça-feira, 15 de julho de 2014

Sem Vírgulas

Feijão, farinha e ovo. E sal grosso. Não sei se na comida ou no banho. 

De como fazer sua vida mais animada... de manhã garanta pra amiga: está tudo ótimo. Daí no meio da tarde fique matutando: poxa, acho que não estou certa sobre nada. No começo da noite pense, com convicção: não é mais nada disso, tá na hora de mudar. Aí depois de um evento qualquer, sei lá, um telefonema, volte a sentir um pássaro no peito. Loucura íntima: trabalhamos.

Status: deslumbrada. 



E eu queria me esconder debaixo do lençol e brincar de cócegas e cutucar o teu dedão e sentar na banheira enquanto tomas banho e fazer tua barba mas só pela metade porque rio muito e a lâmina na minha mão é um perigo e beijar-te o pescoço e ensinar cangote e falar sem parar enquanto cozinhas e pegar comida do teu prato e você nem ligar que é o último tomate cereja e passar sua roupa e dançar na sala e segurar a mão enquanto vemos músicas e ouvimos filmes e ignoramos sinais e trocamos os verbos e os tempos e as pessoas todas e misturamos tu e você e deitar no chão pra ver a lua imensa e tirar fotografias com olhos arregalados e caretas e esquecer papéis e escovas nas suas prateleiras e contar-te histórias repetidas de sertões verdes e gente de sorriso bonito e pele rachada e mares que são abraço e perguntar-te dos exames e resmungar porque não vais ao médico e espremer-te cravos nas costas e desenhar com os pés na areia e deixar que cortes minhas unhas e comer gelatina no café da manhã e rir baixinho quando me ofereceres chá porque já é quase noite e beber três xícaras de café e mordiscar tua orelha e brincar de siso me perdendo no teu olho pra desvendar a cor do mergulho e deixar bilhetes dentro dos teus livros para encontrares só daqui a muitas saudades e acordar-te com mordidas no ombro e muita fome e dar voltas no quarteirão e morder frutos suculentos e pensar em lamber a ponta do teu queixo e antecipar que corarias encabulado e sentar em bancos e esquecer do tempo e chorar porque estás atrasado, já não vens e perceber num susto que ainda nem é hora e te ver chegar e sentir o olho brilhar e passar horas numa loja pra comprar-te o presente certo e sair com um pijama que já sei que não vais usar porque o que primeiro nos soubemos foi no sono e ficar quietinha no sofá enquanto ouves uma série de vinis na loja esquecido de mim e sair pra pegar um ar e sentir teu abraço ansioso pensei que não estavas mais aqui e cair na neve e comer caracóis na praia e ganhar flores na rua e colher castanhas e tirar a pilha de todos os relógios e rasgar todos os calendários e virar todas as ampulhetas e fazer a vida toda caber num respiro. Sem vírgulas.

E, mesmo dizendo tudo e tanto, saber que escrever é antes um desejo que uma verdade.

Seu olho é abismo, sinto vertigens. 

"O que é a vertigem? O medo de cair? Mas por que sentimos vertigem num mirante cercado por uma balaustrada? A vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. É a voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados." (Milan Kundera)

****************

E se eu não ando falando de tudo que vocês andam falando é que vocês já dizem tanto e tão precisos que eu dispenso minhas poucas palavras e me limito ao tanto doer. 

Aqueles dias em que uma pessoa te salva sem saber. Uma conversa sobre nada. Sobre tudo. Sobretudo uma conversa. Que diz assim: és. O certo é que terei, amanhã, um vaso na janela. Pra lembrar que há um amor e que posso levar as raízes comigo.

2 comentários:

Juliana disse...

houve um tempo em que eu repetia esse trechinho aí, sem parar , na análise. aí esqueci dele.

agora até me arrepiei ao ler e me lembrar.

Anônimo disse...

sem vírgulas e de um fôlego só... senti então exatamente as palavras, a vida

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