domingo, 29 de junho de 2014

Sem Olimpo

 Ontem eu escrevi, 22 anos e um país nas costas. Fui dormir depois, querendo falar mais dele, Neymar. Acordei e alguém já tinha dito muito do que penso.

“Neymar é o capitão moral do Brasil. Quando não tinha mais corpo, foi além do limite, e brigou se arrastando. Quando a partida ia aos pênaltis, Neymar puxava o time com energia, numa preleção em campo. Quando, no fim dos pênaltis, dependia dele o rumo do Brasil, Neymar marcou com frieza. (...) Que fenômeno temos diante de nós. Neymar não só exerceu liderança, como também saiu maior de um jogo em que não brilhou. Assim são os grandes: oscilam, podem até balançar na curva rumo ao nada, mas retêm sempre algo capaz de afetar aquilo e aqueles que os cercam.”

O ser humano é solitário, o craque é ainda mais solitário. Entretanto o futebol é um esporte coletivo. Um craque vive de fazer sínteses. Quando deixar seu lampejo individual decidir, quando jogar com o grupo, quando jogar pro grupo. O craque não decide uma vez por jogo sobre isso. Ele faz isso a partida inteira, sem tempo pra refletir de forma crítica. Como a gente vai levando, ele vai jogando.

Mas, né, tem que haver algum coletivo. Guardadas as proporções da camisa, da idade, do preparo físico e do lugar em que a competição se dá, olho Neymar e vejo Cristiano Ronaldo e vice-versa. Dois solitários. Isolados, seja pelo baixo nível técnico dos demais jogadores de Portugal e absurda sequência de lesões, seja pela bagunça convocatória e ausência de opções táticas da seleção brasileira.

E me dá uma tristeza. Porque é um enorme desperdício (lembrei da idéia do Trajano sobre ter um ranking tipo da NBA pra os times que estão na Copa poderem “pegar” jogadores sensacionais de equipes que não se classificaram, tipo o Ibra ou a minha idéia de ter o Drogba como reserva hors concours de qualquer time). Porque faz com que nós, torcedores, passemos por sofrimentos indescritíveis (é só ler o post da Rita). Porque o craque não se exime da responsabilidade, muitas vezes é julgado e condenado quem mais deu. Me dá uma tristeza especialmente pelo que se perde: mais momentos estética e esportivamente resplandecentes, daqueles que o James Rodríguez, por ter Cuadrado e mais uma galera, tem oferecido a cada jogo da Colômbia.

E me consolo, Neymar ainda será apesar de. No clube, na seleção, onde for, ainda teremos (ou eu terei) aquele olhar meio maroto, aqueles saltos ornamentais quando alguém vem chocar-se com ele – forma de proteção que lhe angaria detratores mas eu, pessoalmente, acho lindo, ainda teremos (ou eu terei) aquelas arrancadas em que a bola parece ter vida própria e opta por acompanha-lo na corrida, aqueles chutes imprevisíveis, os passes precisos que você coloca a mão na cabeça e grita: “pra quem, meu deus!” e aí olha e foi pra alguém – ele leu o jogo antes do jogo ser. 

Um menino que pegou a bola e disse: deixa. E bateu o pênalti. E fez o gol. Sábia é a bola, que o procura e percorre, mansa, o campo a seu lado. Sábia é a bola que reconhece e indica os seus. Sábia é a bola que, comovida com a absurda solidão do menino jogador, fica a seu lado quando ninguém mais.

A Copa é esse momento "fora a parte" das existências onde meninos se fazem homens, homens se fazem deuses e deuses se fazem meninos brincando com a bola como se fosse na rua em frente a casa. Neymar, esse menino-deus sem um Olimpo que o acompanhe.


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 E tem o Júlio César, né. Nunca vou esquecer, ele tão novinho, no meu Mengo e a gente gritando/torcendo/brincando: esse goleiro é um gato! E um tempinho depois, em uma praia em Fortaleza, ele dando beijinho na minha irmã e autografando minha blusa, simpático, enorme, prestativo. Um grande goleiro, um enorme jogador, um moço tão fofo. 

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