domingo, 1 de junho de 2014

Minha Lisboa

A minha Lisboa é menos um lugar que uma atmosfera. Minha Lisboa é um estado d'alma. É uma tristeza que quase se sabe riso, mas espera, opa, ainda não pode ser. É uma alegria que quase se pode triste, mas espera, opa, hoje não, deixa o bom ficar. Minha Lisboa é a espera do grande amor, é a espera do grande dia, é a espera da hora certa. E é, também e sem contradição, a certeza que a hora, o dia, o amor, já é tudo memória.


Minha Lisboa é o mercado cheio de música, é a rua cheia de risos, é a calçada colorida de frutos, as árvores em lilás, o céu em azul, minha Lisboa é em cores: as casas, os azulejos, os sonhos. Minha Lisboa são velhinhos fazendo piquenique em Belém, são jovens cochilando no jardim, são turistas feito sardinha no 28.


Minha Lisboa é uma senhora de bengala subindo uma ladeira: desafiante, orgulhosa, perseverante, solitária, bela. Minha Lisboa é um vir a ser, mas que já foi e todos esses tempos juntos dão um certo embaraço nos sentidos. Minha Lisboa é o moderno caminhar a beira do rio e é a rua estreita, um festival de verão soando a guitarras e um fado que escapole pela janela. Minha Lisboa é o cheiro de refogado nas mãos e o gosto do pão fresco na língua. Minha Lisboa sabe a vento.


Minha Lisboa é a irresolvível contradição de arrastar nossa solidão aos grupos que amamos e trazer as pessoas que amamos para dentro do solitário sentir e de nenhum deles abrir mão - e fica-se assim, uns com os outros e cada um em si mesmo.



Minha Lisboa é um jovem casal se beijando nas escadas do metro e é quase felicidade, aí a moça descansa a cabeça no ombro do moço e vemos em seus olhos uma melancolia que não tem idade. Minha Lisboa é uma saudade. E uma promessa. Minha Lisboa é desejar lugares outros. E saber-se em casa. Minha Lisboa é um fadoo triste cantado em palmas e riso.



Minha Lisboa é um céu e um rio. É isso: minha Lisboa é um certo azul.


Um comentário:

Anônimo disse...

Lindo!!

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