terça-feira, 24 de junho de 2014

De Sal



Eu já estava indo embora. Mas não aprendi nada com a literatura: olhei pra trás e virei estátua de sal.

Previsão do tempo: chuvas e trovoadas. É lá fora, mas podia ser a descrição do meu peito.

Tanta coisa que não faço porque eu passaria a me ver meio de lado.

Uma das melhores coisas que me aconteceu: não dar a mínima.

Estava me pintando pra guerra, daí achei que amor era melhor.

Aquela vontade enorme de sabotar todas as pontes que se construiu com tanto afeto. E a maldita musiquinha do Rio Kwai se repetindo no juízo.

Estratégia de sobrevivência: tá quentinho e chove. Coloca uma japonesa, um vestido que seca rápido e dá umas três voltas no quarteirão, tomando banho de chuva, fazendo de conta que foi pega de surpresa. O difícil é resistir quando se vê uma bela bica.

Os corpos se entendem, as almas, não. Especialmente às duas da madrugada.

Aqui diz-se: "perder com". Nada mais verdadeiro sobre esse futuro. 

Eu gosto de natureza, claro. Acho legal praia, morro, céu, pôr-do-sol, sei lá. Desfiladeiros. Mas. O que realmente aperta a garganta, o que mareja o olhar, o que faz batuque no peito são as coisas que a gente faz. Coisas que gente fez. É tiro e queda: o David, o Louvre, uma sanfona, o Orós. Caio no choro. Trabalho e sensibilidade, combinação fatal pra mim. E futebol. O que os moços fazem com a bola? Poesia. Um dos poetas mais engenhosos de safra recente é Cristiano Ronaldo. Que me importa sobrancelha, cirurgia plástica, orientação sexual, penteado se ele dá aqueles dribles elásticos, aqueles passes longos que chegam à perfeição no pé do colega, se ele movimenta-se sem bola com a graça e precisão de um bailarino arduamente ensaiado, se ele abre os olhos pra cabecear como quem faz previsões de oráculo grego? Que me importa se ele é gabola, vaidoso, carente? Ele é quem ele é e quem ele é faz poema em campo. Ontem não jogou, não rabiscou uma única linha, não fez mais que rascunhos de uma rima ou outra. E eu lamento. Não busco as explicações que se avolumam em mim: trouxe o time nas costas, está avariado, cinco machucados e um expulso não é time que se apresente pra escrever com ele. Eu só lamento, mesmo.Porque se despede tão mais cedo da Copa (não vou pegar em calculadoras agora) e porque a Copa, bonita, empolgante, inusitada, fica um tanto mais pobre. O futebol fica menos vistoso, imprevisível, saboroso. A gente também tem saudade do que não viveu – e dói bastante. Tenho saudades do futebol do Cristiano nessa Copa.


Um comentário:

Pedra do Sertão disse...

Opostos que criaram a poesia nesse texto cheio de sensibilidades!

Abraço do Pedra

www.pedradosertao.blogspot.com.br

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