terça-feira, 3 de junho de 2014

Amarelinho

Começou junho, enviei email pra orientadora com trabalho um tantinho na frente do que estava, arrumei estante, troquei o que estava na mala (roupinhas mais leves) pelo que estava no guarda-roupa (roupinhas mais quentes), fiz faxina no juízo. Começou junho.


Junho é esse mês amarelinho: de fogueira e canjica, a gema do ovo, mugunzá, pamonha, o sorriso que é sol, o lençol no varal. Os remendos na roupa da quadrilha. Junho é esse mês com cara de festa: o arraial na calçada, as ruas em bandeirinhas e balões, o riso, os vestidos, a dança. Junho é esse mês com cara de saudade: o meu corpo e outro, a sanfona, o salão. Eu sempre lembro junho em felicidades.

Junho é o mês de engabelar o cansaço, aguenta um pouco, amanhã é o descanso. Junho é o mês dos santos que pedem festa, falam rua, cuja graça se alcança com simpatia. Um minuto pra pensar na lindeza disso. Que beleza de nome: simpatia. É lúdico e escorre na língua, dá vontade de sorrir, a faca na bananeira, a bacia virgem com água e a vela pingando, os nomes enroladinhos dos moços junto a pétalas de flores. O sonho.

Junho é mês com sobrenome: Gonzaga você pode chamar. Ele atende. Com uma risada marota e um resfolegar do instrumento. É junho e as meninas só pensam em namorar. E usam saia que termina muito cedo porque facilita. É junho e eu não preciso chorar porque a sanfoninha chora chora a minha dor. É junho de terreiro iluminado, de fogueiras saltadas, tempo em que eu me amoreno em cheiro de fulô.

Junho é, também e agora, o mês da coragem. De abrir o peito. De não ser só saudade. De aprender uma nova festa, um novo ritmo, um outro lugar e tempo. Junho é acolher: a marcha, a sardinha, os santos ditos populares, o fado no eléctrico. Junho em ladeiras. É fazer novas memórias, outras lembranças, diferentes sorrisos. E, se o peito apertar, faço meu próprio cuscuz, amarelinho.


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Uma vez eu disse: você me tornou imprestável, senão para o amor, para os relacionamentos.  Não sirvo ou eles não me servem. Suspeito que foi porque é um pouco mais fácil batizar minha falta de jeito com seu nome.

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Vou lembrar da gente assim: a palavra que eu quase disse, o carinho que eu quase fiz, o amor que eu quase senti. A saudade que sou.

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"O erro da pessoa é pensar que os silêncios são todos iguais. Enquanto não: há distintas qualidades de silêncio. É assim o escuro, este nada apagado que estes meus olhos tocam: cada um é um, desbotado à sua maneira" (Mia Couto). 

Este meu, por agora, é colecionando mapas e víveres, nunca se sabe a hora do bem querer partir.

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É melhor ser alegre que ser triste. E eu não faço samba.




2 comentários:

Anônimo disse...

A Nayana já tá ensaiando o "amerelíssimo" "olha por céu meu amor" lá na escola....

Juju M. disse...

Tanto do que escreve me lembra do que sinto. É bom!

Não suporto as palavras que eu quase disse. O que eu quase fiz, esqueço, mas palavra fica ecoando.

Um brinde com um quentão quentinho!

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