segunda-feira, 19 de maio de 2014

Ventania

Um silêncio. E outro. E essa tristeza de estar indo embora um pouco antes da hora. Eu tento ficar. Falo, ligo, abraço. Jogo âncoras. Construo pontes, todos me disseram que são importantes. E quanto mais faço, mais sinto a distância. E quanto mais faço, menos me sinto presente. Como se visse, pela vidraça ou em uma tela, o desempenho embaraçoso de uma atriz pouco apropriada para o papel. Eu ainda gosto de você. Sei que a frase é imprecisa. Não é ainda, como se fosse acabar. Suspeito que gosto ainda mais do que ontem ou antes do ontem e do hoje, quando lhe queria tanto. Gosto muito. De você. E pra onde vai. Mas é certo que não vamos juntos. Vejo suas costas fortes, seus passos longos, vejo sua mão que supõe a minha e torço pra que o coração não pese. Eu sei para onde era suposto irmos, um cais ou plataforma, a grande cena final, os lenços acenando, mas já não acredito ser possível chegar. Não no mesmo passo. Não pela mesma estrada. Sinto e calo. Mais silêncios escavando o abismo.

**********



Aquele breve abraço. Você tem pressa, está atrasado - e chove. Dá dois passos, volta indeciso, segura em meus ombros e pergunta: quando foi mesmo que a gente se conheceu? Eu sorrio, fico na ponta do pé e beijo seu queixo, aceno pra você ir logo e viro as costas pra que não veja os olhos marejados. Se houvesse tempo. Ou esperança. Se. Então eu diria: você nunca me conheceu. Não sabe que eu prefiro guarda-chuvas vermelhos. Não sabe que eu queria ser a Nara Leão. Nunca me viu tomando banho de chuva nem comendo panelada no mercado domingo de manhã, não sabe do Sebastião. Não sabe que eu tenho medo do convite do vento e te chamo, à noite, o barulho terrível no vidro da janela. O mundo todo dormindo e eu dizendo: estou com medo de ir embora no vento, meu amor. Tanta coisa separando, quando é que você vai me ouvir, quando é que você vai me conhecer?
(Plagiado, de memória, do texto Plantação, de Vivina de Assis) 


Faz muito, muito tempo que li esse livro. Na escola. No primário, certamente. Chamava-se SeteContos, SeteEncantos e era uma coletânea. O volume 3. Eu gosto de coletâneas, ainda lembro com carinho de todos os “Para Gostar de Ler” que me passaram nas mãos. Mas, eu dizia, era o volume 3 e nele estavam Harriet (do Caio Fernando Abreu) e Plantação (de Vivina de Assis). É provável que os outros textos do livro fossem igualmente bons. Talvez melhores. Mas esses dois. Esses dois. As frases que me diziam antes de. Como eu desejei – ainda desejo – aquela praça, a despedida e poder dizer: meu deus, como você me dói de vez em quando! Quantas vezes encenei o táxi, a chuva, o homem de passos largos só pra poder lamentar a incompreensão e a distância? Nunca precisei relê-los e ainda consigo lembrar a cor da capa, a diagramação das páginas e, se alguém tiver um exemplar pra conferir, acho que no meu pequeno plágio ainda se encontra um trecho ou outro bem parecido com o original.

***********

Fui mais feliz do que deveria, por mais tempo do que esperei. Vou colecionando lápides possíveis.


Um comentário:

Daniel Nascimento disse...

"Fui mais feliz do que deveria, por mais tempo do que esperei. Vou colecionando lápides possíveis."

Querida, se você queria uma citação para futuramente ser confundida com Clarice, achou! ;-) Que lindeza!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...