domingo, 25 de maio de 2014

Eu, Você, Nós

(Não é novo, é de novo. Sentir é assim, um reinvenção. Não?)

Uma imensa saudade da Luciana. Uma enorme, enorme, vontade de saber mais dela. Eu não a conheci o tanto que devia e, hoje, sinto um enorme vazio de tudo que devia entender sobre ela. Acho que sorria. Talvez muito.

Eu não sei vocês, mas eu de vez em quando espreito cartas, cartões, telegramas, bilhetes, pedaços recortados de agendas, tudo que me endereçaram. Leio palavras carinhosas, outras apaixonadas, revejo confissões, medos, angústias, projetos. Leio e leio tentando saber dela, a Luciana que recebia isso tudo. Queria saber como ela era. Como andava, o que comia, o que falava. Como era sua risada? Como escrevia? O que almejava? Porque as pessoas lhe queriam assim? Porque um ele, tanto e tão, parava pra escrever a ela, esta Luciana, assim: "nega", com tanto sentimento que reler é quase estar no seu abraço de novo?

Como vivia esta Luciana que recebeu de sua mãe um cartão que, de um lado, tinha a frase: "Bem que a vida vale o poema vivo que é você"; e do outro um espaço em branco e, lá embaixo, com setinha pra cima: "escreva a sua vida, a sua festa". O que pensava, Luciana, o que você pensava, no seu quarto com tantos livros e telefone madrugada adentro com sua amiga? Quem era você, Luciana, como fazia amigos e tecia amores? Sua mão tremia quando recebia as cartas? Ria feito boba na alegria de gostar? Sentia saudades na pele? Ou não sabia que isso um dia seria passado? 

Eu sei tão pouco dela. Como era seu rosto? E como carregava aquele corpo tão verde, tão desconhecedor de si mesmo? Como seus desejos sabiam outras línguas e era tão fácil ler espanhol como se fosse linguagem sua desde sempre? Como dizia, tão displicente, "venha" e não sabia recebê-lo, entendê-lo, como era tão irreverente com o querer do outro? 

Quem era ela nas mesas de um bar tão protegido, dentro da Universidade? Como sabia, já, escrever "eu amo você" para quem adivinhava esta amizade pra frente? Como recebia telegramas um dia atrás do outro e não se deixava convencer e ficar no braço que a cabia tão bem, mas não a caberia hoje? Você balançava o cabelo, Luciana? Gesticulava muito? Em que acreditava? Quando corria pra encontrar o mar - isso eu sei que você fazia, corria à praia em tardes de arder por dentro - quando corria, o que a habitava? 

Você lembra porque estas meninas lhe escreviam cartas e falavam de seus amores e diziam que você as entendia? Como podia entender, Luciana, você não podia saber nada. Ou você esqueceu? Você sabe menos agora? E porque seu autoexilado amigo escrevia-lhe falando de Platão, Sêneca e solidão se você tinha apenas dezenove anos e não pensava no morrer de todo dia? 

O que seu corpo dizia e suas letras não, pra que tantas convocações lhe fossem feitas? Como era seu cheiro, sua cor, seu tempo? Você cantava, menina. Mal, talvez. Só podia ser mal. E lia, mas não entendia, não é? Porque hoje eu leio o que seus olhos viram e dói que ele tenha dito: "você pode trair-se nestas palavras e, nestas, atrair-se por homens (...) você pode encontrar-se em homens até apaixonar-se e apaixonar-se por homens até desencontrar-se (...) eu leio tudo, menina, mulher, você escreve muito bem e se esconde em cada palavra (...) procurei você no que escreveu, nas páginas, nas linhas, no início de cada parágrafo, revirei as sílabas". Onde você estava, Luciana, que ele não pôde encontrar? Você não sabia ler? Porque não lhe respondeu? Porque nunca foi resposta pra ninguém? Porque nunca aceitou: respostas, pouso, cais, abraço?

Quem você poderia ser, hoje, Luciana, se eu a tivesse conhecido? A quem amaria? Como amaria? Teria sorrisos? Seriam livres como eu quero pensar que você era? Como eram suas palavras? Suas dores? Hoje é uma piada dizer que fumou três cigarros e passou a noite ouvindo Bethania, mas como doía a solidão a cada recomeço do Drama 3o Ato? 

Você sabia que vivia? Percebia cada momento? Ou passava, apenas, esquecendo-se de si? Como sobrevivia a cada dia? Como dormia, como sabia dormir sozinha, se eu, tão mais velha, não sei? Onde construía seus castelos de nuvens e combatia seus moinhos de vento? Você tinha 16 anos e uma agenda. E tinha figurinhas Amar é. Eu não sabia disso, sei agora que a vejo (a agenda, porque você é quase bruma, Luciana). E, na agenda, não há nenhum compromisso, mas você já copiava dizeres de Sylvia Plath... onde aprendeu a sangrar? 

Eu queria encontrá-la, Luciana, em algum lugar em que pudéssemos nos saber. Eu contaria tanta coisa de mim e perguntaria, curiosa, sobre esse passar de dias idos. Ou, ainda, se no meu currículo não tivesse aqueles artigos e pesquisas e sim todas estas cartas, cartões, bilhetes, telegramas, anotações e recortes, talvez se pudesse encontrá-la, Luciana. Porque eu já não sei se você sou eu, se você nunca foi ou se sou eu que ando não sendo nenhuma de nós. Ou se, na verdade, viver é justamente ir esquecendo-se.


3 comentários:

Renata Lins disse...

se choro me lanho me arranho
não é de saudade, suponho que não...

... mas é também, poderia ter sido eu, a gente é tanto esses passados, o já-foi que ainda é, que dói em algum lugar de que a gente não lembra, apenas muda de lugar, de leve, para incomodar menos...

e as alegrias também, e as descobertas, e os caminhos....

e as cartas que eu joguei fora porque eram tantas que não cabiam, e continuam me fazendo falta.

Marissa Rangel-Biddle disse...

Eu te amo! Eu preciso ver vc novamente!

margaret disse...

...mas você já copiava dizeres de Sylvia Plath... onde aprendeu a sangrar?
Pessoas de tamanha sensibilidade como você, Luciana, desde sempre, eu me arrisco a responder.
Seus textos são lindos, extasiantes.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...