segunda-feira, 28 de abril de 2014

Lonjuras

Aquela hora da madrugada em que todos os sonhos são quando.

Hoje eu fiz minha própria massa. Recheada e tudo. Ficou boa, até. 200 gramas de farinha, 2 ovos, uma pitada de sal, um risquinho de azeite. E tempo. E força. E paciência. E uma garrafa de vinho vazia pra abrir a massa. E a vontade de desistir no meio da empreitada porque cansa deixar a massa fininha. Não faço mais sem a maquininha. Mas comi bem, ah, comi.

O básico: não somos todos macacos. Nenhum de nós é. O Daniel Alves não é. Diluir a violência de que ele foi alvo falseando a realidade do racismo, fazendo de conta que esse insulto chega a todos nós indistintamente, sejamos brancos ou negros,  é tão ou mais violento do que o que ele sofreu (e não é sintomático que a tag seja #somostodosmacacos e não #somostodosdaniel?) 

O guarda-roupa aqui é miudinho. Mesmo eu tenho um nonada de roupas, não cabe. Daí eu uso a cômoda e a mala maior, também. Hoje tirei tudo, tudo de todos os lugares. Pra arrumar. Pra separar. Pra transitar. Pra guardar na mala grande as coisas do frio e deixar à mão as roupinhas mais leves. Fui dobrando, empilhando na cama. Hoje foi também o dia em que resolvi fazer massa com meu próprio muque, como contei acima. E o dia em que me meti em muitas, muitas conversas no FB sobre as questões relacionadas ao caso de racismo que teve como vítima o Daniel Alves. Ou seja, as roupinhas dobradinhas estão ainda na cama e eu vou dormir no sofá.


Ganhei da Fernanda Caminhante


Promete? quase pergunto. Mas não digo. Mastigo, devagar, o desejo do desejo do outro e recordo que a fome pode ser aplacada mas não extinta. Aceito o oco. Eu me fiz, também, na forja dos meus impossíveis. 

Eu ando revendo muitos filmes do Fellini. E cada vez mais me encanta o trabalho de Giulietta. A versatilidade. E a plena consciência do que fazia, como se percebe nas entrevistas e making offs. Uma mulher, uma beleza, que me aconteceu, como cantaria Caetano, que, aliás, a cantou. Eu não consigo desviar os olhos. Da sua suavidade. Da sua dor. Da promessa de riso. Da sua força, surpreendente em tão miúdo corpo. Lâmina em seda enrolada, coisa muito complicada, como na canção menos famosa. 

Porque eu sei que posso viver sem. Mas não quero. Não agora. 

Tão mais simples reconhecer o erro, pedir desculpa, aceitar a falta. 

Das voltas que o mundo dá: uma pessoa com quem eu já quase não concordava faz um tempinho. Aí, hoje, postou uma coisa com a qual concordo de coração, com entusiasmo vibrante. Sobre discordar e aprender.


Um comentário:

Dentro da Bolha disse...

a lindeza das poucas linhas com significados gigantes. sem mais palavras, sem mais detalhes.

dentrodabolh.blogspot.com

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