sábado, 12 de abril de 2014

Ficar Doente: Não Curto

Ficar doente. Não curto.

É isso: corpo de quem levou uma surra de pau. Um tantinho de febre. Nariz que parece um chafariz como na musiquinha infantil. E a garganta fechada para balanço. Esse é o quadro. E o que dói mais é o que está na parede da memória, vai entender.

Merendei chapéu de couro, almocei capitão... não sei vocês, mas acho que ficar doente me deixa meio vulnerável infantil.



A cozinha é minha. A casa é minha. Sozinha, passeio nos silêncios de cômodos que são espelhos do sem som que é o aqui dentro. Eu tenho um coração, acho. Mas está calado. Não há estetoscópio que capte o soletrar do vazio. Abro as janelas para despistar as trancas que mantenho firmes onde interessa. Há luz, é manhã. Faço café enquanto desafino uma música do Chico. O Buarque. Talvez a culpa seja dele. Uma boa idéia, essa: foi ele que me estragou para o mundo com seus que serás e todos sentimentos. Cantarolo a lembrança: preciso não dormir até se consumar o tempo da gente. Resultado: olheiras enormes me acompanham desde então. Rio um pouco, tão mais fácil colocar a responsabilidade em alguém. De preferência alguém assim, que nem ele, que nem sabe do meu existir. A xícara, quente, conforta. Seguro firme com as duas mãos. Encosto no rosto. Café forte, preto, denso, açúcar só pra brincar de não travar na boca. Me inclino na janela, deixo o vento frio fazer sal no olho.  Espio a parede. É só isso que tem pra ver da janela: uma parede branca, meu manjericão que morre-não morre, o varal de roupa sem nada pendurado. E o vento, que brinca no meu cabelo lembrando que o café é amargo pro dia não ser. Concordo e ensaio uma risada. Gosto do som. Se levantar a cabeça, o céu é azul, azul, azul. Nenhuma nuvem. Não levanto. Fecho os olhos, mais um tanto do quente na língua, e pinto meu céu das cores que quero. Laranja, vermelho, roxo. Indo um pouco mais longe, faço meu céu impressionista, deixo as formas perderem o contorno e borro os olhos de vontades. Chamo a isso fome e vou bulir nos armários. Tapioca? Não, lembranças demais. Pão com queijo na chapa? Não, apressado demais. Pão com ovo? Torradas francesas? Waffles? (começo a delirar, claro, nem sei fazer isso). Tenho vontade de mim. De me saber. De me lembrar. De mergulhar na solidão. Acolher. Aceitar. Que comida tem sabor de tempo e sertão? Chapéu de couro. Isso. Na mesa: tigela, colher de pau, farinha de milho (3 xícaras), farinha de trigo (3/4 de xícara), açúcar (1 colher, se for mascavo, melhor), sal (uma pitada ou duas), fermento, 1 ovo, manteiga (1 colher bem cheia), leite a gente coloca no olho, mexendo e esperando chegar no ponto. Mexer, mexer, mexer. Fez pasta? Bora temperar: canela, queijo coalho ralado ou em pedacinhos pequenos, cravo, coco ralado. Não tenha medo de sabores. Não tenha medo dos cheiros. Não tenha medo, eu vou fazendo e pensando no chapéu de couro e daí praqueles homens fortes, serenos, rústicos que me abraçavam com mãos calejadas e sobreviviam todo dia sem certeza nenhuma. Sou sertaneja. Sou a terra esturricada do meu sertão. Sou árida e sedenta. Esverdejo muito depressa, qualquer chuvinha me alegra. E logo passa. Vez em quando o coração racha em fendas, como o solo. Que qualquer úmido amor amolece. Pego a frigideira. Manteiga até cheirar, com a colher grande pensa que faz panqueca, não esquecer de virar, eu deixo as beiradas queimarem um pouquinho, isso concentra o sabor. Um, dois, três…vou empilhando, sei que vai durar o fim de semana inteiro, não faz mal, é comida virada que não deixa de ser gostosa. Mais café, chapéu de couro na mão sem guardanapo, lamber os dedos depois, mordidas grandes. Meu sertão é generoso. Deixo o gosto do bom chegar bem dentro, bem fundo, fazer saudade, fazer promessa. Respiro. Não é culpa de ninguém: a fome é minha. A cozinha também.

Um comentário:

Ingrid disse...

Cozinha é tudo de bom...
doença não..
mas faz parte.
beijinhos e melhoras..

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