terça-feira, 1 de abril de 2014

Espelho

Sabe aquela música do Noel Rosa, ô seu garçom faça o favor de me trazer depressa... pois é, eu queria saber o resultado do futebol e eu não tinha nem garçom, nem freguês na mesa ao lado. Só me restava procurar o jornal, não é? Aqui, uma pequena digressão: eu não tenho nada contra tecnologia, inovação, essas coisas. Eu gosto muito da internet. Eu não separo mundo real e virtual. Eu só sou meio lenta (era em 2010, permaneço ainda). E tem algumas coisas que me incomodam, pode ser que eu supere depois.
Enfim, o #mimimi do dia: eu queria saber mais sobre futebol e lá fui atrás do tipo de jornal que eu reconheço na net: a página do Terra. Mas fiquei completamente bêbada. Sabe o caos? É organizadinho perto do que encontrei. Uma profusão de imagens e manchetes em movimento e uma série de promessas do tipo: quanto mais você usar, mas o site vai ficar parecido com o que você gosta, mais ele vai te oferecer as notícias que parecem ser as que você sempre procura. Fui até o UOL e que coisa difícil saber o basicão: quem jogou, quanto foi, quais os próximos jogos. Eu sei que pras pessoas que navegam com frequência por essas ondas pode ser atraente. Pode ser. Não sei. Pra mim, que venho espiar a janela em busca de horizonte, foi assustador. Ponto, parágrafo. 
Esse lance aconteceu também com o google, né. Não com o mesmo aspecto zoado, visualmente parece o mesmo, mas agora as respostas que ele me dá não são as mais comuns, mas as que ele julga mais parecidas comigo. Eu não estou pronta e acho que não quero esse mundo customizado. Me inquieta. Me preocupa. Me perturba. Um mundo feito à nossa imagem e semelhança. Mais e mais do mesmo. Todos os dias abrir a janelinha do mundo e ver apenas o que se espera. Uma profusão de narcisos, um mundo em que não temos rachaduras (e eu lembro da professora de psicologia social e sua tese bem interessante sobre como o capitalismo flexível constitui mais e mais estruturas narcísicas e daí deslizei pra o estudo dos discursos e como o discurso do capitalista "não promove laço social" e como para que haja laço social é necessário reconhecer a incompletude, é preciso reconhecermos que não podemos fazer, nem dizer nem pensar tudo sozinhos. Precisamos que o Outro nos aponte nossas falhas de pensamento, precisamos nos dirigir a esse Outro como lugar que nos faz ir além de nós mesmos. O enfraquecimento do laço social se dá justamente nesse processo de localizarmos nossos “parceiros” como simples objetos de fruição, que nada acrescentam, que nada questionam, que nada retiram - retirar também, né, é preciso questionar as certezas - do nosso saber). 

Eu não quero as buscas do google mais similares às que já fiz, eu quero as buscas do google apenas. Eu não quero propagandas pinçadas das minhas conversas me oferecendo coisas que eu já sei que gosto. Eu não quero encontrar as notícias mais parecidas comigo, Terra, eu queria chegar aí, na sua página e ter um panorama do mundo. Queria ter a oportunidade de ver notícias de Costa Rica e do Afeganistão e de Crateús sem filtro prévio. Não quero apenas os resultados do Flamengo. Não quero apenas as matérias sobre feminismo. Não quero apenas o meu mundo. Quero poder saber. Eu não quero ver e saber apenas sobre o que eu já sei e vejo. Não quero apenas o que me é idêntico. Não quero uma bolha construída por outrem, minha bolha (assim como meu caminho pelo mundo) eu mesma faço. Eu quero descobrir. Eu quero aprender. Eu quero pensar. Eu quero diversidade. Eu já tenho espelho, obrigada. 
Ou assim
Esfrego os olhos, borrando o agora e brinco de confundir sonhos e realidade. Faço caretas pro espelho que não me sorri. A imagem no espelho é sempre de uma aterradora atualidade, não há antecedentes. Nenhuma história. O espelho ignora futuros. Despreza intenções. A imagem é o que é o que é o que é. Abandona a interrogação. Ela simplesmente está. A imagem no espelho não sabe sobrenomes e desconhece o passado. Como saber o viver se nenhuma memória é possível? O espelho decifra e devora. 

2 comentários:

Bárbara Lopes disse...

Lu, eu concordo, mas não concordo. Concordo com não querer a "minha" busca, a "minha" página. Mas não concordo. Porque não existem "as buscas do google apenas". Não existe o "panorama do mundo". É tudo recorte, tudo tem intenção. A grande sacada do google foi o algoritmo em que eles atribuíam relevância pra um resultado a partir dos links praquela página. É o mesmo princípio do lance da academia, da quantidade de citações. Esse é o resultado mais importante? Talvez, mas não é menos enviesado que isso + o tipo de link que você clica. Se essa "customização" burra me incomoda (porque vai contra inclusive aquilo que o próprio capitalismo já sabe: o produto que a gente quer nem sempre a gente sabe que quer), também não sei se é um universalismo que me atrai. Todos recebendo o mesmo jornal, as mesmas notícias. A gente sabe que esse universal tem cara, tem cor, tem gênero, etc. Solução? Não tenho nenhuma. Vou procurar no google.

Luv you!

Luciana Nepomuceno disse...

Então, Babi, eu concordo com sua discordância, mas discordo, rs. Eu não tenho a inocência de achar que a página que não é "minha", que é "geral", não tem ideologia, cor, idade, classe, etc. A diferença é que, sendo assim, padrãozão, a gente tem como saber a quem serve e como. É o discurso do mestre. A diferença, pra mim, é a questão subjetiva mesmo. De encontrar um nicho que conforta de forma tal que as pequenas diferenças acabam se tornando grandes, imensas questões. E a intolerância se faz muito mais próxima. Mas, como eu disse lá no primeiro parágrafo, posso estar demonizando porque não achei o horário do jogo do Meno e logo, logo me acostumo ;-)

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