quinta-feira, 24 de abril de 2014

Dia da Marmota

Sabe o que é bom? Gente. Gente linda, gente boa, gente fina, elegante, sincera. Gente que dá carona. Gente que papeia. Gente que te ajuda a comprar um tênis. Gente que se empolga. Gente que encontra uma blusa que é a sua cara. Gente que não deixa a peteca cair. Gente que faz sopa de bacalhau. Gente que faz planos. Gente que abraça, carrega a sacola, ri junto. Gente, espelho da vida, doce mistério.

Hoje eu tive um insight. Daqueles que me faz lamentar não ter um divã ali na esquina pra eu me jogar com “gostigais”. Um amigo cearense que agora está por Lisboa de vez em quando forma frases de forma “portuguesa”, seja na escolha do vocabulário, seja na estrutura da frase. Algumas vezes é intencional, como uma brincadeira, mas quase sempre vem de forma espontânea, fluente e fácil. E ele está aqui há menos tempo que eu. Eu raramente uso algum termo “português” tendo uma opção “brasileira” quando estou entre brasileiros. E se falo com portugueses, mesmo que use algum vocábulo é sempre intencional e, aos meus ouvidos, soa sempre estranho e fora do tom. Inscrevi essa “dificuldade” em falar português - e não brasileiro ou mesmo cearenses - junto à minha já reconhecida de me expressar (e, como anterioridade necessária, minha incapacidade de aprender) em qualquer língua estrangeira. Aí começaram a pipocar os estalos. Enquanto eu estava pensando em como não sei dizer “autocarro” sem um alerta vermelho soar no meu juízo, eu pensei também: é que falando autocarro eu me sinto uma impostora. E de impostora eu deslizei para impostura. E na impostura fiquei, a tarde toda a cabeça matutando, sem saber direito o quê. Sabia do Serge André e seu livro do qual já não lembrava absolutamente nada senão o título e a capa. Eu ri, eu brinquei, eu comprei, eu comi, eu conversei. E a impostura no juízo. Cheguei e fui fuçar, claro. Novas leituras velhas. Velhas leituras novas. E mais coisa pra elaborar, é com Freud que se sabe que aquilo que o perverso realiza, é o que o neurótico (euzinha, histérica) sonha fazer. Onde o neurótico (oi, de novo) faz estanque o desejo é onde o perverso, sob a égide da impostura, adianta-se em busca do gozo. E daí pro dizer do Serge: [...] estou convencido de que existe uma maneira perversa de enunciar a fantasia, sobre a qual Sade [...] nos dá indicações preciosas. A perversão, em suma, é uma questão de estilo. Com isso quero dizer que é em sua própria fala que o perverso começa a atuar. Sabemos que o neurótico se cala sobre a sua fantasia, ou que só a entrega, na experiência analítica, com extrema dificuldade, como uma confissão arrancada à vergonha, cercando-se de toda sorte de precauções. É que, para ele, fazer a fantasia passar da cena privada para a cena pública, confiando-a a um ouvinte, equivale, automaticamente, a se apontar como culpado e se expor às censuras do Outro. Não é o caso do perverso, pelo menos do perverso confesso, que manifesta, ao contrário, uma tendência a exibir suas fantasias, muitas vezes à maneira de uma provocação.  Entendendo que a fantasia é uma espécie de mediação entre o sujeito e o real que opera de forma a tornar o real suportável, que oferece elementos pra que se faça frente ao real do gozo, fico agora esperando voltar pro divã pra deslizar mais um pouco e decifrar, na medida do (im) possível, qual a fantasia imbricada na minha (in) capacidade de aprender outros idiomas e que gozo eu acessaria saindo por aí com as línguas estrangeiras na minha boca (rá, tinha que arrumar um jeito de ser vulgar sem ser sexy, né).

Hoje eu comprei um tênis. Não, eu não vou malhar, andar, correr, sei que lá que envolve atividade física intencional e sistemática. Mas comprei um tênis. Um até bonitinho, na medida em que um tênis pode ser vagamente agradável esteticamente. Comprei um tênis por amor. Pra me entregar melhor. Pra ficar mais perto. Pra oferecer o que puder ser oferecido. Pra fazer isso de pés descansados e disponíveis.

Porque eu faço piadas bobas. Porque você não entende nenhuma delas. Porque você se inquieta. Porque eu me demoro em risos. Porque há Maria Creusa e o feijãozinho com torresmo, tão nosso, tão abismo. Porque a linguagem é labirinto eu sei que sempre e não mais nunca se separam nessa estória.


Se eu não tivesse lido Kundera, se não achasse tão tocante a imagem do corpo de delito do amor, sentiria diferente essa vontade - que às vezes vem - de que fosse o dia da marmota no nosso relacionamento? (sim, eu misturo referências, me deixem)


PS. Enquanto escrevia o post cometi três vezes o lapso/ato falho de escrever impostura quando pretendia escrever impostora, inclusive uma das vezes eu fui corrigir e repeti o equívoco. Ou seja. 

6 comentários:

Welber disse...

Ainda estou cá a meditar sobre a impostura.

Renata Lins disse...

lindão. e eu sou bem o contrário disso... pego sotaques como respiro, expressões, cacoetes... durante muito tempo achei que não tinha personalidade na fala. depois achei graça. eu sou assim mesmo, vira-lata. daí que em portugal, se eu tivesse ficado mais uma semana, já virava local... :-)

(adorei o post. mas o resto não vou comentar.)

Srt. Karen Costa, prazer! disse...

Eu gosto de gente!

pequena salome disse...

Puxa eu também tenho uma (in)capacidade para aprender outros idiomas, especialmente as piadas, eu não consigo entender nenhuma ironia nem no inglês, nem no espanhol. Até que foi uma surpresa muito legal quando tive contato com as Libras, sério falar com as mãos é uma pegada genial ;)

Ana Paula disse...

Putaqueopariu!
Pra esse e pro outro texto que você lincou, sobre a estrutura (histerica, psicótica, pervesa, etc) e a psicanálise.
Ca-ra-lho.

Cláudio Luiz disse...

preciso achar este divã também.
a dificuldade agora já é fisíca - língua e idade - mas lógico que num primeiro momento era questão de se expor (bem disse vc e calou fundo aqui)e não só numa língua estrangeira.
Ou seria a sensação de ser estrangeiro na própria terra?

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...