quarta-feira, 5 de março de 2014

Oco

Eu ando sem temo. Ou sem jeito. Desorganizada. Ou contente. O certo é que não tem dado tempo. De quê? De nada. E de coisa nenhuma. Vou só vivendo as coisinhas miúdas de cada dia. Simples. Sentimentos, palavras, ações. Fazendo a janta. Tomando banho de bica. Vendo futebol e samba na tv. Jogando baralho. Adiando textos, telefonemas, e-mails. Ignorando as coisas além do que posso viver nas próximas 12 horas. Daqui a pouco a vida apresenta a conta, tô sabendo. Por enquanto, vou até o Mucuripe comprar camarão pro jantar.



Dessa angústia de não querer que o tempo passe mais ligeiro do que tem passado.

Ando dormindo de rede. Todas as camas me parecem imensas quando você não está.

E às vezes chove. Chove como quem chora. Encosto a testa no vidro frio e escorre, não sei ao certo de que lado da janela, essa vontade de ser outra coisa. Desfazer-me. Não sou nuvem, soluça a batucada de água, sou lágrima, digo, chuva.

Do tempo que eu era menina: porta-jóias. Que, claro, serviam pra guardar uma porção de minicoisas (nenhuma jóia de verdade, lamento). Bilhetinhos. Sementinhas. Brinquinhos "de fantasia". Tesouros de momento. Pedaçinhos de coisas. Pedaços de mim, diminutiva. 

Uma coisa puxa a outra, tem a frase da Geneviéve sobre a besta o ventre. E dela para aquele filme terrível (a beleza é, quase sempre, um pouco assustadora) "Onde Vivem os Monstros". E o conforto de saber que ainda estão por aqui, na seu sem jeito feroz. E quão libertador é poder viver a solidão.

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