sábado, 1 de março de 2014

Futebol e Samba

Eu sou doidinha por futebol. Eu sou doidinha por Escolas de Samba. E, todo ano, acho que vou perdendo uma coisinha. Explico (sim, vou reclamar das transmissões).




Eu me criei vendo futebol na televisão. Mais exatamente na Globo e no canal que o Luciano do Vale estivesse com sua troupe. Nesse tempo, eu lembro, a câmera buscava a bola, mas não só. Sabe vista panorâmica? tinha. A gente via os jogadores que “jogavam sem bola”. Dava pra ver a movimentação do jogador, a busca do melhor posicionamento e aí, quando o lance corria certinho, a gente entendia por quê. Nesse tempo os ídolos eram (os meus eram, pelo menos), a maior parte das vezes, não só o moço que faz o gol, mas aquele - vou chamar “discreto” - que intercepta a jogada adversária e ainda tem rebolado pra fazer um passe de média distância. Ou o zagueiro que sempre está (por mágic, rs) no lugar certo pra acabar com um lance de perigo (magicamente means muita movimentação e compreensão do posicionamento tático do time adversário). Dá vontade de cantar: “você lembra, lembra, daquele tempo, eu tinha estrelas nos olhos, um jeito de herói...”. Mesmo assim, quando eu fui ao estádio, que deslumbre. Poder ver tudo, tudinho, praticamente ignorar a bola e ver os moços deslizando em campo, ocupando os espaços, perceber o quão coletivo é este esporte. Aí dia vai, dia vem, e as transmissões vão, cada vez mais, esquecendo qualquer coisa que não seja a bola e quem está com a bola e o lance daquele momento com a bola. E o coletivo do jogo vai esmaecendo. E os jogadores que eu chamei “discretos” vão sendo considerados “apagados” pelos comentaristas e locutores e a gente, que espia pela tv, nem tem como saber se é verdade. Não dá pra saber como é o jogo “a mais”. Não dá pra ver os moços ocupando espaços insuspeitos, se desmarcando pra receber a bola na frente, não dá pra ver os laterais alternando com os meias pra fazer o time avançar...

Aí vem as Escolas de Samba. Desde a primeira vez que vi a Mangueira tive a alma presa. Os desfiles, vocês lembram, lembram? É claro que não dá nem pra aproximar ou comparar com a sensação de estar desfilando em uma escola de verdade. Mas, né. As câmeras passeavam no chão das escolas, a gente acompanhava as passistas, tinha gente transmitindo de dentro da bateria, cada ala era apresentada, entendida, discutida e a transmissão de cada escola englobava o esquenta. Não tinha nada dessa transmissão aérea que só oferece a visão dos carros alegóricos e eventuais closes em fantasias desconectadas. Não era só quem estava “com a bola”. Era um desfile que dava pra ver a escola jogando coletivamente, quem estava se deslocando, interceptando jogada, se movimentando sem bola.

A transmissão do futebol focou, a das Escolas de Samba ampliou, mas, uma e outra, nos fizeram perder (acho eu) uma parte importante do lance. Esses modelos novos (que, certamente, oferecem algo melhor que eu não estou trazendo aqui) nos privam da visão de conjunto. Do coletivo. Da compreensão de especificidades que dão sentido ao processo. Uma e outra construíram novos ídolos (o atacante matador, a rainha da bateria, por exemplo) sem circunscrevê-los na dinâmica que os faz existir – e brilhar. Um e outro roubam, de quem não está lá, a possibilidade de gozar de toda a beleza do jogo – ou do desfile. Quem tem a sorte, a alegria e o dinheiro pra ir aos estádios ou ao sambódromo meneia a cabeça, dá de ombros e segue. Mas quem não tem nada disso – ou mesmo uma dessas coisas, apenas (apenas?), vai se forjando sem poder saber o que poderia ser.

Não, eu não acho que é "por acaso". E não, eu não tenho uma teoria da conspiração brilhante que explica tudo. Eu acho, só pra começar a conversa, que são fenômenos inscritos em uma dinâmica que envolve desde a relação de poder de comunicação concentrado até uma forma contemporânea de diversão acrítica e de narrativa linear, simples e rápida, que não demande demasiada elaboração ou complexidade (aliás, cinema tá aí nessa vibe). 

O que eu posso fazer, eu faço quando dá: vou ao estádio, vejo o desfile das campeãs em outro canal... mas é meio triste pensar que eu podia ter mais, muito mais Mangueira na minha vida.

2 comentários:

'Anjos Sujismundos' disse...

Concordo em 99% , só consertando o nome da Escola pra Portela !

Palavras Vagabundas disse...

Vem pra cá no próximo carnaval e vamos ver a Mangueira na Sapucai.
bjs
Jussara

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