terça-feira, 11 de março de 2014

Essas Coisas Que Não Se Diz (2)

(originalmente publicado no "Eu Sou a Graúna"  - blog meio abandonado, tadinho - e resgatado  e reinventado pela memória e gentileza da Clara e da Raquel)



Eu não sabia você. Não sabia seu olho que me faz bonita. Não sabia esperar letras em azul. Não sabia espreitar árvores que abraçam o céu. Não sabia a melancolia das frases inacabadas. E tudo que eu não sabia era um vazio que eu me acostumei a chamar serenidade. Eu nem percebi quando as coisas foram pedindo você. Não eu, as coisas, digo pra me convencer. Devagar, devagar, eu me digo, eu sei, tem uma dor latente tão imprevista que pode cortar o respirar. Escrevo longos textos que não publico. Construo paisagens, de palavra em palavra, um mosaico de caminhos que, todos eles, me levariam a você. Desfaço, letra a letra, sabendo que não é isso que esperas. Mas é que não sou uma pessoa boa. E isso significa que eu não sei silenciar em elegante compostura. Você já viu aquele filme: Lições para toda a vida? Há uma tocante conversa entre o tio e o sobrinho em que aquele diz a este que um homem deve poder acreditar em coisas que são ou não verdades (...) um homem deve acreditar na honra, na coragem e na justiça e um homem deve acreditar no amor, não porque sejam verdade, mas porque é importante que se acredite nelas. Eu não sou homem, tenho minha própria lista de crenças. Bem no topo, esta: não se deve abrir mão de um desejo, mesmo que este nunca se realize. Apenas o fato de existir já me faz outra pessoa. Mais intensa. Mais viva. Mais nítida. E completo dizendo que se faço drama é porque não sei fazer poesia e que nem um nem outro deviam lhe chegar como uma exigência ou convite, mas como uma tentativa de humanidade. Se me ferir a pele, eu sangro, mas é o sangue quem sempre esteve aqui, não o corte. Viver é muito perigoso, alertou Guimarães Rosa, mas é o que melhor faço, enquanto morro um pouco a cada dia.

Movimento 2

Eu não sabia você. Não sabia que podia caber em uma mão. Não sabia pequenas frases que se fazem cafuné. Não sabia o cheiro do alho, a comida quente feito abraço. Não sabia as horas em estrada se fazendo gozo. Não sabia o silêncio. E tudo que eu não sabia era um vazio que eu me acostumei a chamar serenidade. Eu nem percebi quando as coisas foram pedindo você. Não eu, as coisas, digo pra me convencer. Uma foto pedia seu olho. Uma roupa pedia seu toque. Os copos e garfos pediam seus lábios. Minha pele pedia teu olho, mão, língua. Ela, não eu. Essa querência em um pas-de-deux com o relógio, me cortando a respiração. Respira, respira, devagar, devagar, eu me digo, eu sei, é preciso me reinventar. Não mais aquela, que não era tua. Ainda ela, se dono. Sem dons. Sem danos. Uma outra que encaro, desconfiada, nas poças de chuva. Escrevo longos textos com coisas que não posso dizer que sei que não devo publicar. Construo paisagens, de palavra em palavra, um mosaico de caminhos que, todos eles, me levariam a você. Desfaço, letra a letra, sabendo que não é assim que quero me lembrar disso que vivemos. Quero a beleza do mar que sabe, mesmo quando vaza, que amanhã é maré cheia. Mas eu não sou uma pessoa boa. E isso significa que eu não sei silenciar em elegante compostura. Você já viu aquele filme: Lições para toda a vida? Há uma tocante conversa entre o tio e o sobrinho em que aquele diz a este que um homem deve poder acreditar em coisas que são ou não verdades (...) um homem deve acreditar na honra, na coragem e na justiça e um homem deve acreditar no amor, não porque sejam verdade, mas porque é importante que se acredite nelas. Eu não sou homem, tenho minha própria lista de crenças. Bem no topo, esta: não se deve abrir mão de um desejo, mesmo que este nunca se realize. Apenas o fato de existir já me faz outra pessoa. Mais intensa. Mais viva. Mais nítida. E completo dizendo que se faço drama é porque não sei fazer poesia e que nem um nem outro deviam lhe chegar como uma exigência ou convite, mas como uma tentativa de humanidade. Se me ferir a pele, eu sangro, mas é o sangue quem sempre esteve aqui, não o corte. Viver é muito perigoso, alertou Guimarães Rosa, mas é o que melhor faço, enquanto morro um pouco a cada dia.

Movimento 3
Vocês já tiveram a impressão de amar sempre a mesma pessoa? E quando essa pessoa é, não outras pessoas que se parecem, mas você mesma em relação?

PS. Na dúvida se mantenho o post inteiro. 

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