segunda-feira, 17 de março de 2014

Diário de Bordo: Não Esqueci a Felicidade

Um dia tem gente por todo lado, carinho, sol e gosto de mar na comida. Depois, o oceano. E o gosto de mar, ao olhar pela janelinha aquela cidade que é mas não é sua, escorre pelo rosto. Com a ponta da língua recolhe-se a frase: quase chegar em casa.

Então, as malas. Desmanchar e separar e dobrar e pendurar e perceber que os espaços ficaram pequenos pra tanta recordação. Os sapatos ainda espalhados, sacolas entreabertas, gavetas cheias, geladeira vazia. Sono, muito sono.

Abrir: os olhos, janelas, a porta. Ir pra rua. Redescobrir o caminho. E o próprio passo. Faz sol. Amorna a alma. Reaprender a estar. Eu sou. Aqui. Essa. Um sorriso. Outro. Bom dia. Dia. Bom. Meu. Uma gaitada. Minha. Eu. A mesma esquina. Outra. Mais uma. O passo mais leve. Tão bonitas as calçadas. As pessoas. Aquela senhora e sua bengala. O moço e seu carrinho de compras. As primeiras compras como as promessas de sempre: vinho, pão, azeite. E só. Melhor não: iogurte, ovos. Depois se vê.

O oco ficando mais cheio de mim. Era fome, eu brinco, eu rio. Lavo roupa e me debruço na janela pra alcançar o varal. Penduro cores molhadas. Faço arte, como dizia minha mãe, quando eu era menina malina. Falo carinhos, quase consigo acreditar no que digo. Arrumo as palavras como os livros na estante, sem ordem: saudade, beijo, querer, depois.

O tempo passa depressa, em rodopios, fico tonta. Durmo. E mais. Até que é dia. E planos. E rua. O barulhinho do eléctrico. Supermercado, agora com lista. O de sempre e o que posso nunca precisar. A geladeira já não faz eco. Leio. Vejo televisão. E fome. De novo. Não sei de quê. Queria ligar para o delivery e dizer: quero uma coisa úmida, mas consistente. Que me lembre um abraço. Com variedade de ingredientes. Um cheiro vago de mar ou terra molhada. Textura entre firme e macia. Ao fim, que deixe a sensação de uma boa viagem. Não acho o número desse restaurante, consulto os amigos, coleciono ideias, vou eu mesma pra cozinha. Um filé de salmão. Sal. Pimenta do reino. Azeite. Dos dois lados. De um lado só, passo na mistura de gergelim com farofa de castanha. A frigideira com azeite bem quente, selo o peixe, primeiro o lado do gergelim. Gosto do barulhinho que faz. Lembro o namorado ensinando a fritar, outros peixes, outros tempos, outro fogo: só vira quando acabar de fazar fsshshshshsh. Como não amar ter amado assim? Mas esse salmão não, não precisa disso tudo – que bonita é a vida e suas metáforas - pode ser menos, pra esse peixe, pra mim, pro calendário e ainda ser gostoso. É só pra torrar o gergelim. Vira. Pronto? Pronta. Assadeira e forno. Mas faltava o úmido. Arroz cremoso de leite de coco e pedacinhos de cebola quase crua que aparece, de repente, em contraste de textura. Pra ficar colorido, o prato, a vida, o que seja, manjericão e tomate cereja.

Deixo a dúvida passear em mim. Já não tenho medo. Já não tenho sonhos. Já esqueci de amanhãs. Não espero. Não preciso. Gosto. E me basta. Fecho os olhos e vejo o escuro. Sou eu. Também. E sei, com essa certeza agridoce que me acompanha, que não esqueci a felicidade. 

*****

A gente sente o bom, até que. Essa dor que é revolta e impotência. Cláudia da Silva Ferreira. Não tenho palavras. 


Um comentário:

Anônimo disse...

Parabens... Lindo texto... Muuitas lembranças... PAZ nos seus caminhos...

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