sábado, 15 de março de 2014

Caixinha

Abriu, cautelosa, a caixinha delicada onde guardava as palavras mágicas. Aquelas que coleciona para os dias de sofrer, que costumam chegar. Era em vermelho o dizer e no peito se fazia batuque, não havia sono e as janelas eram todas para o nascente. Eles brincavam de adivinhar, ensaiavam esquinas e esqueciam geografias. Saudade. Mais uma dessas palavras que hoje ela arruma, nostálgica, na caixinha delicada.

Um dia acordei e não era uma mosca. Nem uma barata. Eu não era um pombo, ganso nem nada parecido. Eu acordei e eu era eu. Braços ocos de abraços, pernas inseguras e, o mais esquisito, sem saber onde pôr a cara.
Isso de querer ser aquilo que se é, é uma bela duma treta.
Um único desejo: borrar memórias.
Eu escrevo na areia e a desconfiança, em ondas, apaga o riso.
Faço calendários. Conto o tempo em desassossegos.

Uma História de Aeroporto e Coach Carter (acho que tem spoilers)
Ainda estava com o eco das gargalhadas ecoando no peito, quando escuto, atrás de mim, na fila pra passar na esteirinha: e o perfume, colocou no saco? Não, esqueci. Ah, então coloca no bolso, pode ser que passe. Claro que não passou, a maquininha é sabida. E aí a confusão. A mulher queria porque queria passar com o perfume porque “só tem 30 ml”, “porque a empresa não me deu um saco”, “porque imagina na copa”. Foi grosseira com o funcionário, usou o argumento de que é cidadã e paga imposto, disse que pagava o salário do moço e por aí ladeira abaixo. Que ele não via que “ela ia viajar de boa fé e que não podia ser impedida por essa norma boba e ainda mais que o governo não dava os sacos para os clientes que não tinham sacos”. Daí veio o supervisor. E trocou o responsável pela esteira. E uma outra viajante tirou suas coisas da sacolinha e deu pra ela. E ela passou. E depois devolveu o saco. 
E eu fiquei lembrando aquele filme Coach Carter (eu gosto de filmes de esporte, me deixem). Vocês viram? É assim, o moço vai contratado pra treinar um time de escola, ele faz um contrato com o time que inclui desde uso de gravata no dia de jogo até uma média de notas que os jogadores precisam ter. Daí o time começa a ganhar tudo, todo mundo tá feliz, mas as notas vão mal. Ele, treinador, cancela treinos e jogos até que as notas fiquem boas. E todo mundo fica rebelde. E quando digo todo mundo não estou falando dos jogadores. Estou falando de pais e professores que fazem de tudo (inclusive demitir o técnico) pra os garotos poderem voltar a jogar e ganhar. É no momento da demissão que ele diz o negózi que me fez lembrar do filme quando estava lá, vendo a confusão na esteira, ele pergunta o que estamos ensinando quando aceitamos que os jovens quebrem as regras só porque......... (inclua aqui o status preferido, no caso do filme foi jogadores de basquete). 
Eu fiquei de coração bem apertado ali, perto da esteira, pensando no que estamos ensinando, no que estamos aprendendo, no que estamos reproduzindo. E pensando, claro, que esse nós não é um absoluto, tem classe, tem cor e, um tanto de vezes, tem gênero.  
Por fim...
"Capitu sorriu abanando a cabeça com um ar que nunca achei em mulher alguma, provavelmente porque não gostei tanto das outras. As pessoas valem o que vale a afeição da gente, e é daí que mestre Povo tirou aquele adágio que quem o feio ama bonito lhe parece”.

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