segunda-feira, 31 de março de 2014

Solidão, Mariscos e Outros Devaneios

"Amor feinho não tem ilusão
o que ele tem é esperança"

Acho que o que mais me aperta o coração é não ter com quem partilhar esse cheiro na cozinha. Faz assim: corta o frango em cubos ou tiras e tempera com suco de limão siciliano. Deixa esperando. Em um potinho mistura gengibre, curry, açafrão, páprica picante, canela, pimenta do reino moída. Corta pimentões e cebolas em tiras finas. Refoga o pimentão, acrescenta a cebola até ela ficar translúcida. Escorre e reserva. No mesmo azeite, bem quente, joga os condimentos, deixa o odor tomar conta da casa, junta o frango e gergelim. Deixa dourar. Coloco uns tomates pelados e a metade do leite de coco. Cozinha por uma meia hora. Junta grão de bico lavado, os pimentões e a cebola reservados, o resto do leite de coco e deixa o fogo baixo completar o trabalho em mais uns dez minutos. Desliga o fogo e joga uma porção de cebolinha picada. Fica gostoso, fica bonito, fica colorido. Só o que me entristece é não ter com quem partilhar esse cheiro que vem da cozinha. O que, claro, é uma dessas ilusões humanas. Ia escrever ilusão romântica, mas nem é exatamente isso, porque mesmo que não estejamos esperando o-grande-amor-da-nossa-vida de vez em quando a gente acredita que alguém, uma amiga, um irmão, um professor, whatever, alguém seria capaz de pensar o que a gente pensa, sentir o que a gente sente, dizer como a gente diz. Inspirar com força e sentir o misto de conforto e sensualidade que esse odor me provoca, por exemplo. Ou o riso no peito de ver o mar. Ou o misto de medo e gozo de ler-me no Kundera. Mas não, né. Ninguém vai. Porque essa é a maior beleza de ser gente: essa inexpugnável solidão. Essa impossibilidade de comunicar da qual, diária e insistentemente, duvidamos, e à qual, insistente e diariamente, combatemos. Sem esperança. A não ser a de continuar tentando. E cozinhando, no meu caso.



Eu vi essa imagem aí de cima no blog da Fal (vocês lembram que eu sempre digo pra vocês lerem, né). E ela passou o dia comigo. Achei tão bonito o que a Fal escreveu. E tão diferente do que eu pensei. Ah, a solidão, da imagem, das palavras, do sentir. A solidão das identificações, até. Das histórias. Ela disse: cavalo. Eu pensei: jumento. Ela falou: desamparo. Eu pensei: propósito. Ela arrematou: fim do mundo. Eu pensei: decisão. Olhei e me vi, meio por fora, na contramão, atrasada, talvez, mas como essa certeza de ter uma porção de perguntas ainda por responder. Todos os dias é meio isso, eu e minhas armas um tanto risíveis, no meu jumentinho manso, indo pra algum lugar que geralmente me ignora.

E eu nem contei pra vocês que apesar dos percalços da tentativa passada continuei minha investigação dos sabores do mar daqui. Mariscos. Já foram as amêijoas (a bulhão), a sapateira e, ontem, navalheiras e percebes, seguido de um Arroz de Marisco (ainda faltam santola, lavagantes e um outro que não aprendi o nome. Mas eu chego lá). O mais divertido foi comer o percebes. Certamente é um gosto adquirido (é bem salgado, sabe a mar) que eu adquiri rapidinho. O menos empolgante foram as navalheiras, parecem caranguejos mirrados e são servidos frios. O restaurante era sensacional, começando pelo nome: Marisqueira dos Pobres. Fica em Matosinhos que tem a maior concentração de restaurantes de mariscos que já vi na vida. Recomendo com empolgação. 

Eu gosto demais. Até aceito o Peninha.

A sensação de que todas as camas vão ficar enormes.

Escrevi esse post aqui no Biscate: Ralo. Tem gente que gostou, gente que elogiou. Era um desses lembretes que a gente escreve a batom no espelho, em brasa na pele, com o dedo na areia da praia, em qualquer lugar, pra ficar ao alcance da mão, do olho, só pra garantir que não vai esquecer. Porque também sou humana e tenho esse ralo enorme no peito.





Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...