terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Fim Da Página


A janela deixa passar a luz fria das lâmpadas brancas da rua. Pensei em cobrir o tempo com a cortina grossa e fantasiar que é a hora que eu quero, o sentir que eu quero, a vida que eu quero. Se fosse, não seria a hora dessa carta. Ou sim, já não tenho certezas. Tenho coragem e algumas saudades. A mão é firme ao escrever, no topo, à direita, local e data. Reflito e acrescento a hora. Cedo ao detalhe, eu que os ignorei por tanto tempo pra permanecer ao seu lado. Coloco hora, minuto, segundo, pulo uma linha, escrevo teu nome. Nenhum querido o acompanha. Dói um pouco ver essa solidão. Mas é necessária. Penso em acrescentar um caro ou, mesmo, meu caro, mas nem a posse nem a gentileza fria combinam com o momento. Deixo seu nome solitário, parece um prenúncio adequado.

E agora? Suspendo a caneta. Não escreverei as faltas. Não listarei os desencontros. Não desenharei os abismos ou indicarei os desvios. Essa não é uma carta de negativas. Letra a letra indico o futuro. Afirmo a distância. Marco as passadas. É sobre mim, não sobre nós, porque nós, é, agora, palavra oca, sem sangue, carne, sonhos, a cama amarrotada ou café quente na mesma xícara.

Escrevo o sim. A caneca de café, o cuscuz amarelo, o cheiro de mar. O lençol macio, a voz rouca na vitrola, o chão frio, os pés descalços. Escrevo o sim, as vozes na sala, a brisa na varanda, os copos espalhados. Escrevo o sim, lágrimas na madrugada, a cama fria, o pedaço de chocolate resgatado do fundo da gaveta. Escrevo o sim, tardes cheias de letras, manhãs cheias de ruas, noites cheias de corpos.

É meia noite no fim da página. Com um suspiro, assino e deixo cair, juntas, caneta e lágrima. Com um certo capricho, dobro o papel e vasculho gavetas procurando envelope como quem posterga o adeus. Lá fora, uma criança acorda chorando, um bêbado tropeça e xinga, alguém liga o rádio. Vive-se. Inspiro. Também eu.

- este post é parte integrante do projeto Caderno de Notas - Segunda Edição do qual participam as autoras Ana Claudia Marques, Ingrid Caldas, Luciana Nepomuceno, Lunna Guedes, Maria Cininha, Tatiana Kielberman, Thelma Ramalho e, a convidada Mariana Gouveia.

4 comentários:

Tatiana Kielberman disse...

E a vida tem mesmo esta estraha insistência de continuar...

Lindo!

Beijos, querida Luciana!

mariana gouveia disse...

Por insistência abro a caixa do correio várias vezes. Parece que a carta veio pra mim.

Lindo mesmo!

Ingrid disse...

escrever, escrever..
ler e reler..
e a página chega ao fim..
amei!
beijos ..

Minhas Pinturas disse...

Não li só esse texto, fui lendo todos como num impulso que saciou meu dia com doce prazer.
beijinhos,
Léah

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