sábado, 25 de janeiro de 2014

Para Brincar de Ler

A Renata e o Fernando me chamaram, não dá pra recusar, me chama que eu vou (por mais que seja mesmo fitar o abismo essa brincadeira). É pra listar dez livros que tenham me marcado (ufa, não tem um "mais"). Diz o mote que não precisam ser grandes obras e que a ideia é não pensar muito. Basta que tenham sido importantes pra mim.  

Ligações Perigosas, Chordelos de Laclos – inesquecível por tantos motivos: a carta da Marquesa de Merteuil explicando como se educou para ser quem era, a carta de Valmont tendo uma prostituta como escrivaninha e, ai, ai, o discurso que a Marquesa insinua pro Valmont e ele, bobinho, repete pra Madame.

Crime e Castigo, Dostoievski – tem como não se envolver com os limites do drama e da consciência humana? Foi meu primeiro Dostô. Provavelmente gosto mais dos Irmãos Karamazovski, mas esse foi o primeiro.

A Filha Pródiga, Jeffrey Archer – esse é um daqueles best-sellers meio sei lá como. Mas eu gosto muito dos personagens, especialmente da governanta que ensina a necessidade de um pano B. Levo pra vida até hoje. Li no começo da adolescência, livro de biblioteca da escola, saí procurando, comprei em um sebo e tenho (e releio até hoje, pelo menos uma vez por ano).

O assassinato de roger ackroyd, representando o mundo maravilhoso de Agatha Christie – amo tudo, tudo, tudo dela e tenho mais de sessenta livros na estante. Todos os crimes íntimos, o olhar preciso sobre as fragilidades humanas, os detetives entre a caricatura e a sagacidade. E, claro, a construção brilhante. No caso desse livro, a genialidade da frase (citando de cabeça): fez o que tinha que fazer nos minutos seguintes e foi embora).
 
Moby Dick, Herman Melville – Porque há o impossível e essa nossa obsessão de viver. Não por acaso já escrevi Call me Moby Dick.

A Insustentável leveza do ser, Milan Kundera – esse é um dos livros em que me apaixonei não só pela escrita e enredo, mas pelos personagens que me são íntimos e queridos como amigos. E o dicionário das palavras incompreendidas é um dos elementos determinantes na minha forma de me relacionar/viver as paixões.

O Castelo, Kafka – bla bla bla Kafka brilhante, carta ao pai é super tocante, mas , na verdade, o Kafka que mais me marcou foi o que nada entendi. Li esse mais ou menos com oito ou nove, por causa do nome, procurando a princesa e o final feliz. Encontrei outro mundo. E, acho, lá fiquei.

A doença da morte, Marguerite Duras – Todos os livros de Duras me marcam pela escrita em fluxo, a marcação subjetiva nítida nos textos, a compreensão da solidão humana, a beleza de tentar nomear o vazio.

Lord Jim, Joseph Conrad – um daqueles livros “de homem”. E eu, menino, me apaixonei. Está tudo lá: a aventura, o horror, a coragem, a honra. E os inversos. É por causa da culpa. Mas não só. Por causa do desejo de redenção. Mas não somente. Pelo que aqui se diz melhor, leiam: Lord Jim.
 
O morro dos ventos uivantes, Emily bronte – pelos motivos óbvios, mas nomeio um: o que eu nunca vivi, ali eu sei.

Todos esses livros acima foram escritos em línguas que desconheço. Deles só sei o que me deram a ver os tradutores (obrigada, amiguinhos). Sei que perco muito em não ler no original. E sei disso porque, nos livros escritos na língua que me fez eu, há belezas que não estão apenas nas histórias e personagens, mas na sutileza de se escolher e organizar as palavras, de se montar as frases, de brincar com o que o leitor espera e por aí vai. Por isso, reconhecendo o “a mais” que gozo na minha língua de formação, fiz uma lista a parte:

Dom Casmurro, Machado de Assis – na verdade, na verdade, tudo que li de Machado me marcou. Podia ter colocado aqui Iaiá Garcia, que tanto me disse sobre o querer bem. Ou Memórias Póstumas de Brás Cubas que tem um dos melhores narradores já visto (lido). Mas escolhi esse por causa dos olhos da Capitu. E dos meus. E dos três moços que, em diferentes ocasiões (e, suponho, com diferentes motivos) me disseram que tenho os olhos de ressaca.

A menina morta, Cornélio Pena – porque eu sequer sabia esse livro e ele me tirou o fôlego. O livro não é "sobre" nada. Há uma história mas, francamente, não é um enredo com reviravoltas e eventos. Há angústia. Há pessoas. Há o interdito. Isso é o que mais me vincula: o que não pode ser dito e que se faz presente a cada página. Há uma sombra, um sentimento de vigília, de alerta. Não é um romance subjetivista. Não é um romance regionalista. Não é um romance intimista. E é o quê? Não sei dizer. Uma experiência de cada um. Não há redenção. Há, sim, uma tensão, um limite que nunca é ultrapassado nem esquecido. Há tempo e não há. Há o tempo da perda, do impossível de dizer, o tempo da escravidão de todos às convenções. E não há, como se fosse atemporal o que se sente, as misérias humanas, as fraquezas, as impossibilidades (escrevi sobre ele aqui: Eu e Ela, Mais Mortas do que Vivas).

Como se o mundo não tivesse leste, Ruy Duarte de Carvalho – porque houve um tempo em que eu não sabia a literatura portuguesa como a língua que por aí vagueia se fazendo a mesma, se fazendo outra. Língua biscate. E aí o Ruy me pegou no colo e me fez viajar e nunca mais parei.

SeteContos, SeteEncantos - uma dessas coletâneas de se ler na escola. Podia ter citado, também, os Para Gostar de Ler. Foi neles que conheci Teleco, o coelhinho (do Murilo Rubião), a Harriet do Caio, o pistoleiro que não devia ter piedade do Moacyr Scliar, a moça de luva da Lygia Fagundes Telles e tantos outros personagens e autores que me acompanham e impressionam até hoje.

Jerusalém, Mia Couto – porque é tão íntimo e tão estranho o modo como escolhe não só o que dizer, mas como. Porque é outro continente mas me soa como o sertão tão meu.

A via crucis do corpo, Clarice Lispector – desde que li Clarice eu soube que escrever não era uma escolha, mas uma necessidade.

Para um menina com uma flor, Vinícius de Moraes – porque eu li, até que um dia fui lida.

Pente de vênus, Heloísa Seixas – há muitos bons autores e autoras contemporâneos. Heloísa sabe fazer abismos com as palavras. É uma escrita que, vez ou outra, me deixa em vertigens. Eu gosto. Mas nem é por isso. Me marcou porque foi uma autora que eu não escolhi, que eu não descobri. Me trouxeram. E, na época, eram as mãos do amor. Foi bom.

O tempo e o vento – porque um dia eu pensei que se podia amar um certo capitão.

Grande Sertão Veredas – porque um dia eu pensei que se podia amar.

Quem quer brincar?

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