quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Véspera

Acordei cedo, espreguiça daqui, espreguiça dali, pular da cama pra levantar antes da mamys, se eu vacilar ela já fez tudo antes de eu escovar os dentes. Banho, dentes e a primeira inspecção nas marinadas: o chester, dois lombos, um pernil. Tudo temperado na véspera da véspera, depois de chegar do cinema. Foi divertido: sessão acabando meia noite, eu, o Lucas, Samuel e Cunhadinha. O filme nem foi ruim, mas bom mesmo é o furdunço. Espeto com o garfo, tudo parece macio. O chester é o basicão: vinho branco e ervas. O pernil vai de cachaça, suco de laranja e mostarda. Um lombo com shoyo, mostarda e mel, outro vai de vinho tinto e especiarias. Ninguém pode negar: um sóbrio jantar, hohoho.

Mal cobri a última tigela e minha mãe entra na cozinha. Sim, ela reclama que vai ser comida demais, mas eu não ligo muito, sei que daqui a pouco ela mesma vai inventar mais coisas. Vamos arrumando a mesa do café enquanto ouvimos meu pai terminando de se vestir. Aproveito o bom dia, papys e peço pra ele comprar pão e mais uns itens que sempre faltam, como cozinhar sem cheiro verde? Nem sei pro que vai ser, mas sei que vai ser. Ele pergunta se não querio ir junto, eu digo que só se for pra minha mãe se dequitar de mim, rimos e ele sai. Esperando o pão vou combinando detalhes da ceia com a mamys, faço café e ligo pra Luana, pra saber se ela vem merendar com a gente. Ela vem, claro, vou fritar ovo e assar o queijo. Tem cheiro de amor, queijo coalho na manteiga.

Na cabeça, vou conferindo os ingredientes da salada: alfaces, acelga, manjericão, bacon (que já, já tem que ser picado e torrado), passas só no centro pras pessoas poderem tirar facinho, cenoura ralada... Será que tá bom? Não era fã de salada, mas de uns anos pra cá é uma das coisas que mais gosto nas comidinhas de festa. Gosto de fazer e de comer. Minha mãe pergunta das entradas, mas antes que eu possa responder a Luana chega no alvoroço, eu paro, minha mãe para, vamos todos caducar com a Nayana que chega toda espilicute e falante, perguntando pelo Samuel. Hora de acordar o filhote que vem pra mesa meio enjoado e reclamão.

Chega meu pai com o pão, tão quentinho que a manteiga derrete só de encostar, e um bocado de compras não previstas que, claro, a gente não tem onde colocar, porque a geladeira está cheia. Minha mãe pensa em fazer cara feia, mas aí sorri e cutuca meu pai pra não esquecer de gelar as bebidas.

O café naquele furdunço de sempre, a Nayana chamando atenção e comendo o queijinho de todo mundo, Samuel já de bom humor, Luana badalando, eu badalando, o telefone toca, é uma das antônias, minha mãe conversa com ela rapidinho.

Enquanto mamys arruma a mesa, vou preparar o tender. Um dos. Pras entradas. Pro meu pai reclamar: vodca, goiabada, mostarda. O outro, pro meu pai gostar: shoyo e cebolas. Pãozinho de leite. Também vai ter o pão da luciana, ovinhos de codorna e foundue de queijo, tá bom, mãe? Ah, quede as torradas? Uffa, tudo certo.

Luana, coloca música, please. O quê? Pode ser o dvd da Bethania. Hora de ir acendendo o forno, bora tratar de pôr tudo pra andar que ainda tem que levar a árvore pra área, arrumar as cadeiras na garagem, encher os balões, colocar o balde com sacão de lixo em lugar discreto... Liga pro Lucas, pra saber que hora ele chega. Vem quando a Maria Alice acordar, vai deixar a Marília na casa da D. Joana e vem ajudar. E a Liana? Tá na sogra, só vem na hora do amigo secreto. Falta o quê, mãe? Ah, almoço? Nãaaaaooo. Sempre me dói ter que ocupar as bocas do fogão com algo que não seja da festa, mas fazer o quê, tem que alimentar a galera. Macarrão com frango e lavar tudo rápido pra desocupar a pia. Porque, depois, ainda tem que fazer o arroz (ou pedir: pai, faz? Seu arroz é o melhor). E, claro, a farofa. E cuidar do que está no forno. Calor, calor, calor. E administrar a mamys pra ela não fazer tudo e ficar cansada demais pra festa à noite.

A cozinha cheira bem, os pequenos entreveros alternam-se com os pequenos gestos de cuidado e amor, há música, riso, história. Memória. 


XXXX

Do outro lado do espelho: velas, bacalhau no forno, Sinatra, bolo-rei, chuvachuvachuva, castanhas e chocolates.

3 comentários:

Caminhante disse...

Lindos! Deu vontade de ser um dos nomes que aparecem por aí e prova a ceia...

Feliz natal!

Anônimo disse...

Eita saudade de tu nega!!!!
Assim tu mata nos!
bjs.
Luana

Palavras Vagabundas disse...

Natal, lembranças, vontades e saudades, lindo!
Um 2014 cheio de maravilhas!
beijão
Jussara

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